''Vacinar é mais barato que hospitalizar''

ENVIADA ESPECIAL/ LIMA

Clarissa Thomé, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2011 | 00h00

Lúcia Helena de Oliveira, assessora de novas vacinas da Opas

Começa amanhã a 9.ª semana de vacinação nas Américas. Coordenada pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), a meta é imunizar 40 milhões de pessoas em 38 países para diferentes doenças.

A campanha, que segue até 30 de maio, aponta para uma mudança no programa de imunização - que antes tinha foco nas crianças. Homens e mulheres são vacinados contra sarampo e rubéola e há a entrada de novas vacinas, como a que previne o vírus responsável pelo câncer de colo de útero. "Vacinas existem todos os dias nos postos de saúde. Mas é nesta semana que os países se esforçam para vacinar grupos que não se atinge na rotina", diz Lúcia Helena de Oliveira, assessora regional para novas vacinas da Opas.

É difícil convencer adultos a se vacinarem?

Crianças vão aos centros de saúde no primeiro ano de vida várias vezes. É mais fácil vaciná-las do que uma pessoa adulta que não vai ao posto de saúde, ou só vai quando está doente. Principalmente os homens. Por isso, é preciso estratégia de comunicação mais forte, que faça a população entender que é importante que seja vacinada. É uma mudança de cultura que está indo aos poucos e já avançou muito. Na vacinação de rubéola e sarampo na região das Américas foram vacinadas mais de 250 milhões de pessoas entre 15 e 39 anos, um grupo comumente não vacinado.

Aumentar a população vacinada e incluir novas vacinas no calendário oficial representa um custo. Qual é o impacto?

Em 1987, o custo de vacinas para as Américas era de US$ 545 milhões, 79% dos quais financiados pelos governos. Em 2007/2008, esse valor passa para US$ 1,68 bilhão e 99% do orçamento é pago com dinheiro dos próprios países. Uma pessoa vacinada não será hospitalizada e terá condições de ser produtiva. Se a expectativa de vida, num país como o Peru, é de 75 anos e existe uma doença que está matando aos 40, estou perdendo 35 anos de vida dessas pessoas. Vacina é um investimento, não somente em saúde, mas também na economia do país.

Mas antes havia vacinas muito mais baratas.

Exatamente. Mas hoje não vão mais existir vacinas que custem centavos de dólar, como a da pólio, porque a tecnologia utilizada para a produção avançou muito. E essas enfermidades que têm vacinas mais caras matam muito mais, hospitalizam por mais tempo. Vacinar é muito mais barato.

Qual sua avaliação sobre a inclusão de novas vacinas no calendário oficial dos países?

O processo de introdução de uma vacina não pode ser rápido. Há toda uma etapa de avaliação, se a doença é importante para o país. Também há a questão logística para garantir que as pessoas estejam bem treinadas, que todos os centros de saúde tenham a vacina e as doses estejam bem acondicionadas na cadeia de refrigeração. E há a etapa pós-introdução, quando se deve medir o impacto na população. O risco é de que não seja um programa que tenha êxito nas três etapas. E aí compra-se grande quantidade de vacina, gasta-se muito dinheiro e o medicamento não chega onde deve chegar por falta de planejamento. O risco é jogar o dinheiro fora.

QUEM É

Epidemiologista e mestre em Saúde Pública pela Fundação Instituto Oswaldo Cruz, é consultora da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas). Foi diretora do Programa Nacional de Vacinação.

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