Vacinar estudantes reduz em 60% casos de gripe, aponta estudo

Brasil e a maior parte dos países, porém, não adotam a estratégia de imunizar a população de 3 a 15 anos

Alexandre Gonçalves, O Estadao de S.Paulo

10 de março de 2010 | 00h00

PÚBLICO-ALVO - Criança de 2 anos recebe vacina em campanha contra gripe suína no Canadá

A imunização de crianças e adolescentes pode reduzir em cerca de 60% os casos de gripe em uma comunidade. É o que mostra um estudo publicado hoje por pesquisadores canadenses no Journal of the American Medical Association (JAMA). Contudo, a maior parte dos países do mundo, incluindo o Brasil, não costuma imunizar a faixa etária dos 3 aos 15 anos. Eles optam por priorizar grupos com mais mortes provocadas pela doença, como idosos ou crianças com menos de 2 anos.

O trabalho mostrou que crianças vacinadas não sofrem contágio na escola e, dessa forma, não levam o vírus para casa. O efeito é conhecido pelos epidemiologistas como imunidade de rebanho, pois a vacinação de um grupo protege os demais membros da comunidade.

O estudo analisou a gripe comum, mas especialistas sugerem que uma estratégia semelhante ajudaria no combate à pandemia de gripe suína. "A principal implicação (do artigo) é que crianças e adolescentes devem ser incluídos no público-alvo de vacinação para influenza", afirmou o principal autor do trabalho, Mark Loeb, da Universidade McMaster.

No Brasil, a campanha de vacinação contra gripe suína não vai oferecer imunização gratuita para pessoas com idade entre 3 e 19 anos. Questionado pelo Estado, o Ministério da Saúde afirma que a campanha de vacinação não pretende conter a pandemia - algo que já seria impossível -, mas evitar os casos graves. Por isso, o principal critério para definir quais grupos devem receber a vacina foi a suscetibilidade aos quadros letais da doença, o que tornaria menos prioritária a imunização de crianças com mais de 3 anos e jovens com menos de 20.

A PESQUISA

Os cientistas canadenses investigaram 49 colônias huteritas, um grupo protestante surgido no século 16 que costuma se organizar em pequenos povoados rurais relativamente isolados.

Em 25 colônias, as crianças e os adolescentes de 3 a 15 anos foram imunizados contra influenza sazonal. Nas demais comunidades, crianças e adolescentes receberam vacina contra hepatite A. Os pesquisadores acompanharam 3.272 pessoas de todas as colônias durante sete meses e, quando surgia um caso suspeito de gripe, realizavam testes laboratoriais para confirmar o diagnóstico.

Por fim, constataram que, nas comunidades onde os estudantes receberam a vacina contra influenza, 4,5% das pessoas contraíram a doença. Nas outras colônias, a prevalência foi de 10,6%: mais do que o dobro. O trabalho começou em outubro de 2008 e terminou em junho do ano passado.

Outros trabalhos já apontavam na mesma direção. A infectologista da Unifesp Nancy Bellei recorda um artigo que relacionava o abandono da imunização de crianças no Japão ao aumento de casos graves da doença em idosos.

No Brasil, o Instituto Butantã e o Instituto de Medicina Tropical, da Universidade de São Paulo (USP), também realizaram um estudo clínico semelhante. No trabalho, cerca de 1,7 mil alunos de nove colégios estaduais foram divididos em dois grupos. Um deles recebeu vacina contra gripe. O outro, contra meningite C e catapora. Durante seis meses, os pesquisadores acompanharam 5.886 familiares dos alunos imunizados.

O estudo não acabou, pois exames laboratoriais dos casos suspeitos de influenza estão em curso. De qualquer forma, um dos grupos apresentou um número significativamente maior de diagnósticos clínicos de infecção respiratória. "Há várias evidências de que estudantes devem receber a vacina", diz Expedito Luna, um dos responsáveis pelo trabalho.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.