Vale só competir?

Mais que o antiquado ideal olímpico eurocêntrico, o atual modelo remete às origens dos Jogos, quando o que contava era vencer

JAN GEORG SÖEFFNER - É DO DEPARTAMENTO DE ESTUDOS LITERÁRIOS DA UNIVERSIDADE DE COLÔNIA, ALEMANHA,

12 de agosto de 2012 | 05h01

Em 1984, a Adidas batizou sua coleção olímpica especial de Espírito dos Jogos. Talvez não fosse o momento. A Olimpíada de Los Angeles, na verdade, marcou o fim das ideias e dos ideais utópicos que um dia foram associados a esse" espírito". O não profissionalismo olímpico ficou obsoleto- e isso diz algo sobre os ideais antes reunidos na Ideia Olímpica. A coleção "espiritual"expunha isso exemplarmente: o espírito dos jogos havia se materializado de duas maneiras: como estratégia de marketing, fundindo-se ao fluxo de caixa; como equipamento, associando-se a "esportes da moda".

 

A fuga do "espírito" da eurocêntrica ideia olímpica parece hoje quase completa. A Olimpíada atual mostra que os Jogos se dão muito bem comum espírito mais materialista. De certo modo, a materialização veio como uma libertação: os atletas não precisam mais expressar com seus corpos "uma humanidade melhor", ou alimentar utopias divergentes e máquinas propagandísticas (claro, ainda podem, mas não são obrigados, e as acusações contra atletas chineses mostram como esses ideais parecem coisa do passado).

 

De certa maneira, o atual modelo é mais fiel às origens ancestrais dos Jogos que a antiquada ideia olímpica. Nas competições da Grécia Antiga, a simples "participação" não contava. Não havia segundo e terceiro lugar, só vencedor, e os derrotados eram envergonhados ao máximo. Mais: embora não personificassem ideais utópicos, os antigos atletas gregos eram quase semideuses. O imenso prestígio dos atuais astros do esporte talvez seja um eco disso. Na Grécia Antiga, a "divindade" dos atletas tinha presença corpórea. Não era tão importante o que os atletas transmitissem ou expressassem, mas do que eram capazes, e como os espectadores podiam assimilar isso fisicamente."Divindade" não era conceito relacionado a um ideal, mas a capacidade.

 

E o "sentido" dessa capacidade era a emoção compartilhada pelo atleta e o grupo ao qual ele pertencia. A cultura grega fora fundada não sobre um ideal, mas sobre a emoção em forma de competência. A Ilíada celebrou a ira e o rancor do lutador Aquiles, e os esportes gregos parecem ter seguido o paradigma. As transmissões da Olimpíada de hoje também exibem um forte enfoque em emoções materializadas em atitudes e linguagem corporal. Esse enfoque pode ter substituído a antiga "ideia" ou "mensagem" olímpica da competência não profissional. A diferença em questão - a diferença entre o espírito olímpico ideal e o corporificado -manifesta-se com perfeição no boxe. O boxe olímpico, não profissional, é extremamente conservador. Ele resiste a fundir-se como profissional.

 

O boxe profissional, por sua vez, sempre foi ligado à mídia e suas exigências, a fluxos de caixa legais e ilegais. E produziu "heróis" cujas encenações emocionais exageradas lembram mais espetáculos de "reis do ringue" que competições atléticas - mas de não desprezível impacto político (como atestam Muhammad Ali, ou recentemente, Vitali Klitschko). Em contraste, o boxe não profissional sobreviveu definindo-se como competição com regras claras e respeitadas. Sua estética limita-se, de um lado, à capacidade dos competidores, e de outro às ideias e ideais de respeito e esportividade. O boxe não profissional parece subordinar a violência à competência, enquanto o profissional expõe drasticamente a violência, frequentemente com desrespeito. O sinal mais visível dessa diferença leva novamente à Grécia. É a nudez.

 

Os boxeadores não profissionais usam capacete e camiseta; os profissionais exibem o torso, o que provoca um choque de emoções entre orgulho e vulnerabilidade absoluta. Atletas gregos antigos iam ainda mais longe, expondo seus genitais (o que tinha uma certa importância: testículos pendentes eram vistos como sinal de falta de autocontrole, vergonha ou inferioridade). A nudez parece remeter a toda uma maneira de ser, emocional e corporal.De fato, o significado cultural do boxe profissional nunca foi levar às pessoas um conteúdo ideológico. Pugilistas profissionais expõe seu "eu" emocional e corpóreo à violência física mais extrema, onde esse eu tem de mostrar seu valor. Mais que conflitos de conceitos, ideais e convicções profissionais, as lutas tendem a exibir conflitos de comportamento e emoções.

 

O boxe olímpico ainda parece espantosamente desprovido de uma dimensão similar. Diferentemente do boxe profissional e de outros esportes, que se fundiram com o profissionalismo, produzindo personagens como Usain Bolt ou Roger Federer, o boxe olímpico não produz realmente estrelas (nesse sentido, é, quando muito, uma divisão juvenil dos astros do profissional). Em especial, a maioria dos pugilistas russos e chineses, incrivelmente competentes, ainda parece seguir o ideal não profissional no sentido estrito.  Muito lentamente, porém, o boxe olímpico parece também estar mudando. O peso médio britânico Anthony Ogogo, por exemplo, é famoso por seu estilo "Big Brother" - uma exposição radical de hábitos e atitudes emocionais. A foto em que pousou nu para a revista gay Attitude chamou a atenção. O equilíbrio entre competência e emoção aparece muito mais em modalidades olímpicas menos conservadoras. Quando ocorre no boxe, porém, ele se manifesta com espantosa graça. Quem viu as lutas de Esquiva Falcão Florentino sabe do que estou falando. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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