'Vamos descobrir o que vai ser ter um papa jesuíta'

"Nunca queríamos um jesuíta como papa." A confissão é do vaticanista e jesuíta americano Thomas Reese. Em entrevista ao Estado, o religioso admitiu que ninguém dentro da ordem sabe hoje exatamente o que significa para a Igreja ter um papa jesuíta e já prevê que o estilo de pompa e luxo predominante dentro do Palácio Apostólico vai se chocar com seu voto de pobreza - o novo papa não abre mão de usar transporte público, por exemplo.

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

15 de março de 2013 | 02h01

Com um grupo que se vê a serviço da Igreja, e não como uma espécie de governo, Reese afirma que o movimento não estava preparado psicologicamente para estar na cúpula da Igreja. Ele acredita, por outro lado, que muitos vão interpretar isso como um pedido divino para que prestem mais esse serviço à instituição.

O que significa para os rumos da Igreja Católica a escolha de um papa jesuíta?

Eu acho que ninguém sabe ainda o que isso significa. Isso foi uma surpresa total para todos. Nunca queríamos um papa jesuíta.

Por quê?

Sempre me preocupei que qualquer coisa que saísse errado se um papa fosse jesuíta a culpa recairia sobre nós. A outra preocupação é que, por ele ser jesuíta, hesitaria em dar atenção à ordem, sob o argumento de que sempre privilegiaria a nós, sobre os outros. Na verdade, vamos descobrir o que vai ser ter um papa jesuíta. Os jesuítas servem à Igreja, não são os governadores dela. Não estávamos preparados psicologicamente para isso. Mas acho que teremos de ver como um apelo a mais, um serviço.

Já vimos que ele tem um estilo diferente do que é visto na Cúria. Como é que isso vai se chocar dentro do Vaticano?

Claro, essa é uma das principais questões. Acho que sabemos que ele, em termos de teologia, segue as mesmas linhas de João Paulo II e de Bento XVI. Outro aspecto é que ele é extremamente progressista em temas sociais e de justiça. Ele lutou pelos trabalhadores, foi crítico da globalização e o que causou para os povos dos países em desenvolvimento. Além disso, ele assume seu voto de pobreza de uma forma muito séria. Ele se recusa a morar no palácio dos bispos, aluga seu próprio apartamento, cozinha sua comida e pega o ônibus.

E ele terá como fazer isso no luxuoso palácio do Vaticano?Sim. Agora, como ele vai conseguir manter esse estilo simples no Palácio do Vaticano, eu não sei. Isso será um desafio real. Mas este não será um papa que se vestirá de peles e seda. Talvez seja um choque para muita gente dentro da Cúria. / J.C.

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