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Gilles Lapouge
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Vaticano e Pequim, impérios do segredo

Duas cerimônias que influirão no futuro do mundo se realizam simultaneamente, uma em Roma, centro da Cristandade, e outra num local diametralmente oposto, em Pequim, capital da China.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2013 | 10h12

No Vaticano, 115 cardeais estão elegendo o papa que sucederá Bento XVI. Em Pequim, os deputados da Assembleia Nacional Popular designarão Xi Jinping como presidente e Li Keqiang como primeiro-ministro, os dois já escolhidos em 2012, após um processo rigorosamente obscuro.

Seria arbitrário unir os dois eventos. Um diz respeito a um país que postula o materialismo dialético e o capitalismo ao mesmo tempo. O outro, em Roma, elegerá o homem que vai se tornar o chefe de uma comunidade espiritual ligada ao Deus cristão. De um lado Marx, do outro, Cristo.

Entretanto, existem parâmetros comuns. Em primeiro lugar, o poder. Xi Jinping governará uma massa infinita de 1,3 bilhão de indivíduos. O futuro papa será o "pastor" de uma população também numerosa, 1 bilhão de fiéis, com a diferença de que essas pessoas não pertencem a um único país, mas estão disseminadas pelos cinco continentes. Uma segunda diferença é que o Vaticano, mesmo que seja um Estado, é um dos menores do mundo, e que cuida em primeiro lugar dos espíritos, das almas. "O papa, quantas divisões ele tem?", perguntou estupidamente Stalin, outro materialista.

Outra semelhança: os dois acontecimentos são espetaculares. Tanto em Pequim como em Roma teremos direito a uma "liturgia" grandiosa. Neste aspecto, o Vaticano está em vantagem, com dois mil anos de experiência em matéria de esplendor, que consegue expor centenas de cardeais vestidos de vermelho que parecem ter saído diretamente da grande pintura ocidental, de Ticiano a Veronese, de alguns gênios como Michelangelo e a sua Capela Sistina, sem esquecer a inefável grandeza dos cantos gregorianos.

E há também o segredo. Nos dois casos, ele é quase absoluto, mas não tem o mesmo peso. Em Pequim, o que nos apresentam é uma maquete de democracia: são reunidas duas assembleias eleitas pelo povo, milhares de deputados ou delegados da Assembleia Nacional do Povo e da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês. Tudo se desenvolve sob os olhos do mundo inteiro. Como ser mais democrata, mais inocente, mais transparente, mais decifrável? Só as crianças.

O problema é que todo este cerimonial é um efeito visual, uma vitrina, uma ilusão e até um logro. A transparência produz trevas. O oceano de discursos é apenas uma pequena onda muda. O governo da China, seja neste momento solene em que são entronizados os dois chefes do Executivo ou, mais tarde, no exercício ordinário dos seus poderes, é incompreensível. Um labirinto sem Ariane e com o Minotauro. Um buraco negro.

Os ferrolhos são instalados. A China é um segredo que inúmeros "sinólogos" jamais conseguiram entender. Aliás, não é o sistema comunista o responsável. É a índole chinesa: outrora o imperador comunicava seus desejos, suas decisões de amor ou sangue, por meio da vibração de suas cortinas.

Nesta área do "segredo" o Vaticano não tem nada a invejar de Pequim.

A diferença é que o segredo romano é anunciado, reivindicado, teatralizado: o termo "conclave" (cum clave) significa "sob chave". O resultado será anunciado por uma fumaça branca, uma fumaça que, na verdade, tem cem anos de idade (o primeiro conclave foi realizado em 1274, no qual Inocêncio V foi eleito). Não exige nem candidatura nem programa. E os cardeais que são os eleitores prometem diante de Deus e dos homens não trair os segredos deste colóquio "fora do tempo" e quase "fora do espaço" do qual sairá o novo papa.

Mas nada de ilusões. O tempo arranhou a couraça dessa instituição que é o conclave. Vimos há poucos dias um grupo de prelados americanos se movimentar em bloco, multiplicar as confabulações e, numa inovação surpreendente, realizar coletivas de imprensa. Ocorre que as deliberações do conclave são impenetráveis. Como também são inaudíveis as discussões daqueles que têm a China em suas mãos. A diferença, contudo, é imensa: o Vaticano tem a seu favor a lealdade, a franqueza. O Vaticano proclama e reivindica o "segredo" e o faz respeitar para garantir uma decisão absolutamente pura. A Cúria faz oficialmente do "segredo" a razão mesmo do conclave e da eleição do futuro papa.

A Igreja é a mais antiga instituição do globo. Ela tem quase dois mil anos e permanece fiel, senão à "letra" pelo menos ao "espírito" das suas origens, da sua história e do seu destino. Ela permanece, ela perdura, modesta, orgulhosa, triunfal, ao passo que em torno dela se desintegram impérios, caem civilizações, explodem revoluções. A Igreja não é uma democracia. Muito menos uma ditadura. Por mais alquebrada que esteja, por mais instruída que seja com suas leis, contratos e jurisprudências, ela preferiu uma forma de governo extraordinária que não tem imitadores. E para aqueles que acreditam no céu, ela tem entre seus grandes eleitores um personagem de peso que se chama Espírito Santo. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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