Vaticano impõe lei do silêncio a cardeais e data de conclave segue indefinida

Religião. Decisão é anunciada em meio a mal-estar causado por vazamento de informações, principalmente por parte da delegação dos EUA, sobre teor de debates no Colégio Cardinalício, que abordavam dossiê preparado por comissão sobre escândalos da Igreja

JOSÉ MARIA MAYRINK, ANDREI NETTO - ENVIADOS ESPECIAIS, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2013 | 02h07

VATICANO - Se já estava difícil falar com um cardeal antes do conclave que definirá o sucessor de Bento XVI, agora está quase impossível. A Congregação-Geral do Colégio Cardinalício, que se reúne desde segunda-feira para discutir a situação da Igreja e traçar o perfil ideal do novo papa, proibiu qualquer manifestação de seus membros, eleitores ou não, sobre o que está ocorrendo na sala de debates.

Além da determinação, que alimentou várias especulações da imprensa, a demora para a chegada a Roma de dois cardeais adiou por mais um dia a definição da data do início do conclave. Jornalistas que conseguem abordar um cardeal recebem respostas monossilábicas, evasivas ou um silêncio intransponível.

"Lembro-me sim do senhor, mas não posso falar", esquivou-se o cardeal João Braz de Aviz - um dos cinco eleitores brasileiros no conclave -, ao chegar ontem à Basílica de São Pedro. Quando o repórter do Estado perguntou se o arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer, havia feito uma intervenção, terça-feira, no plenário, d. João continuou caminhado, sem dizer uma palavra.

O arrocho contra a divulgação de notícias sobre as reuniões preparatórias atingiu a delegação americana, cujos cardeais vinham falando sobre o processo de sucessão em concorridas entrevistas no Colégio Americano, onde residem padres e seminaristas dos EUA que fazem doutorado em universidades de Roma. A entrevista de ontem com dois cardeais, Francis George e Theodore McCarrick, foi cancelada, uma hora antes de ser iniciada.

O porta-voz da Santa Sé, padre Federico Lombardi, explicou que a lei do silêncio foi decidida por consenso. Os americanos, diz Lombardi, achavam que deviam dar informações aos católicos dos Estados Unidos. Mas o vazamento de informações sobre os debates na Congregação- Geral, que vem discutindo o escândalo Vatileaks, além de temas como pedofilia e corrupção na cúpula da Igreja, teria contrariado a Cúria Romana.

Entre os cardeais que manifestaram à imprensa preocupações com os temas, um dos mais enfáticos foi o americano Daniel DiNardo, arcebispo de Gavelston-Houston, no Texas. "Queremos saber o máximo possível sobre a governança na Igreja", garantiu, na terça-feira. "Isso tomará o tempo que for necessário. Ninguém quer precipitar as coisas."

Antes da proibição, d. Odilo, em entrevista por e-mail ao jornal O São Paulo, publicado pela sua arquidiocese, criticou o desconhecimento da mídia sobre a Igreja. "É um fato interessante que, de um momento para o outro, todos começaram de novo a falar da Igreja, mesmo sem conhecer bem as questões abordadas."

Debates. O porta-voz informou, sem entrar em pormenores, que nas quatro reuniões realizadas desde segunda houve 51 intervenções de cardeais que foram ao microfone falar de questões como a Igreja no mundo de hoje e as exigências da nova evangelização (reconquista de fiéis que perderam a fé ou se mudaram para outras igrejas), as relações da Santa Sé e da Cúria com os episcopados e, a principal revelação, a busca do perfil do novo papa.

"O dia do início do conclave ainda não foi marcado", adiantou-se Lombardi. A demora se deve à decisão de aguardar a chegada a Roma de todos os cardeais eleitores. "Já estão presentes 113, faltam 2", informou, referindo-se ao cardeal polonês Kazimierz Nycze e ao vietnamita Jean-Baptiste Pham Minh Mân - a chegada dos dois está prevista para hoje. Pela lei da Igreja Católica, os cardeais têm até 20 de março para iniciar um conclave para escolher seu novo líder.

O porta-voz exibiu um vídeo da TV do Vaticano sobre as obras de adaptação da Capela Sistina para o conclave. Técnicos e operários cobriam o piso com um assoalho falso e instalavam estufas para a queima de papéis com os votos e anotações dos cardeais e a produção da fumaça branca que anunciará o novo papa.

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