Vaticano justifica declarações de cardeal

Vínculo de pedofilia a homossexualidade baseou-se em casos internos, diz Igreja

Afp e Reuters, O Estado de S.Paulo

15 Abril 2010 | 00h00

CIDADE DO VATICANO

Dois dias após a polêmica causada pelas declarações do secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone, que vincularam a pedofilia no clero à homossexualidade e não ao celibato e geraram protestos em vários países, a Santa Sé buscou acalmar os ânimos e explicar a posição da segunda maior autoridade da Igreja Católica.

O porta-voz do papa, Federico Lombardi, afirmou que Bertone fez suas declarações com base em um estudo interno da Igreja que contabilizou apenas 10% de casos de pedofilia envolvendo sacerdotes. Os outros 90% seriam de efebofilia, a atração sexual de adultos por adolescentes ? e, desses 90%, 60% seriam casos de atração homossexual.

"As autoridades eclesiásticas consideram que não são competentes sobre temas de caráter médico e psicológico" e por esse motivo "citam os estudos especializados e as investigações em curso sobre o tema", afirmou Lombardi em nota.

Bertone disse, na segunda-feira, durante viagem ao Chile que terminou ontem, que "muitos psicólogos, muitos psiquiatras, demonstraram que não há relação entre celibato e pedofilia, mas muitos outros demonstraram e me disseram recentemente que há relação entre homossexualidade e pedofilia. Isso é verdade, esse é o problema".

As declarações do número 2 da Igreja provocaram protestos no Chile e em outros países com forte presença católica, como França, Itália, Portugal e Brasil.

O porta-voz da chancelaria francesa, Bernard Valero, ao ser indagado sobre a posição de seu país em relação à declaração do cardeal, afirmou que se trata de um "amálgama inaceitável, que condenamos".

O diário italiano La Repubblica publicou editorial em sua primeira página na qual aponta que "reina neste momento uma grande confusão na Igreja, forte sinal de fraqueza". "Todos sabemos, tanto Bertone como o clero de Roma, que a pedofilia é um delito, um feroz abuso, e que a homossexualidade ? por decisão própria ou imposta pela natureza ? é tão legítima como a heterossexualidade", continua o texto.

O vaticanista Bruno Bartoloni, que presenciou o pontificado de seis papas, diz que os membros da Igreja "estão encurralados ante os escândalos". Ele também afirma que chegou a hora de o papa Bento XVI convocar os cardeais de todo o mundo para debater a crise e definir uma linha de conduta comum e clara. "Seria um gesto importante para os católicos de todo o mundo", afirma. /

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