Vaticano nega suposta ligação de Bergoglio com ditadura argentina

Igreja iniciou uma ofensiva para limpar nome do novo papa em relação às críticas de que ele teria compactuado com os órgãos de repressão nos anos 70 e 80; porta-voz disse que as acusações são caluniosas e difamatórias e que ele protegeu os perseguidos

ANDREI NETTO , JAMIL CHADE , ENVIADOS ESPECIAIS / ROMA, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2013 | 02h02

Pressionado pela polêmica em torno da suposta colaboração de Jorge Mario Bergoglio com organismos de repressão da ditadura militar da Argentina, o Vaticano lançou ontem uma ofensiva para tentar limpar o novo papa.

Em um pronunciamento sobre o assunto, o porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi, definiu as acusações como "caluniosas e difamatórias" e promovidas por grupos ideológicos "anticlericais de esquerda" para atacar a imagem da Igreja. Cardeais de diferentes países também se lançaram em defesa do pontífice.

O pronunciamento foi o primeiro movimento oficial do Vaticano para responder as críticas que ganharam novo fôlego após o fim do conclave, na quarta-feira à noite, que resultou na unção de Bergoglio como pontífice.

Segundo as acusações, iniciadas há 30 anos, o atual papa teria colaborado com a ditadura militar da Argentina, que deixou mais de 15 mil mortos e 30 mil desaparecidos entre 1976 e 1983. Desde então, duas investigações envolveram seu nome. A mais importante diz respeito ao sequestro de dois padres jesuítas, Orlando Yorio e Francisco Jalics, em 1976, quando trabalhavam na periferia de Buenos Aires. Bertoglio, então com 39 anos, era o superior direto de ambos por exercer a função de provincial dos jesuítas na Argentina.

À época, ele sofria críticas de setores mais progressistas de sua congregação, ligados à Teologia da Libertação, que o acusavam de apatia frente à ditadura e de desmobilizar os jesuítas, levando-os a abandonar a ordem.

Yorio e Jalics teriam recebido uma ordem para deixar Buenos Aires, a qual teriam desobedecido. Três meses após o golpe militar promovido pelo general Jorge Videla em 24 de março de 1976, os padres foram sequestrados. Para os críticos de Bergoglio, a exclusão dos dois teria sido interpretada pela ditadura como uma autorização implícita para realizar o sequestro.

Defesa. O Vaticano foi para a ofensiva ontem. Visivelmente incomodado pelo assunto, o porta-voz da Santa Sé alegou que seria necessário responder às ilações, que considerou anacrônicas. Lombardi citou o escritor argentino Adolfo Pérez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz por sua luta pelos direitos humanos no país, que isentou Bergoglio de colaboração com o regime. "Esquivel não é particularmente próximo à Igreja", ressaltou.

"A campanha contra Bergoglio é conhecida e se refere a acontecimentos de muitos anos atrás. Foi promovida por uma publicação especializada em uma campanha de viés calunioso e difamatório", disse, alegando que as acusações teriam "caráter anticlerical". "Nunca houve uma acusação concreta e credível ao seu encontro. A Justiça argentina o interrogou uma vez, mas apenas como pessoa conhecedora dos eventos. Mas ele nunca foi imputado por nada."

De acordo com o Vaticano, Francisco teria respondido às acusações "de forma fundamentada, com provas". "Existem muitas declarações que demonstram o quanto Bergoglio fez para proteger muitas pessoas no tempo da ditadura militar na Argentina", argumentou Lombardi. Para o porta-voz, as acusações fazem parte de um período da ditadura "influenciado por elementos ideológicos anticlericais de esquerda para atacar a Igreja".

A resposta às críticas também mobilizou religiosos de peso, que manifestaram apoio a Francisco. Ao Estado, o cardeal de Viena, Christoph Schönborn, negou as especulações sobre o suposto passado obscuro do papa. "Eu não sei de detalhes de sua relação com o governo. Mas sei que isso não procede", disse.

O arcebispo de Santiago, Javier Errázuriz Ossa, saiu em defesa de Bergoglio. "Um homem com tal coração jamais estaria envolvido em nada desse estilo", declarou.

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