Venda da Medial prejudica usuário

Com a aquisição, Amil ficará com 10% do mercado de planos, diminuindo oferta, alertam especialistas do setor

Fabiane Leite, O Estadao de S.Paulo

30 de novembro de 2009 | 00h00

O anúncio da venda do plano de saúde Medial para a operadora Amil é o ápice da tendência de concentração de mercado no setor de convênios de saúde e um sinal ruim para os consumidores, alertam especialistas. Hoje, antes mesmo da incorporação, 50% dos beneficiários já estão nas mãos de 37 empresas, apesar de existirem 1.723 ativas, 1.522 delas com usuários.

De acordo com dados da Amil, se consumado o negócio, a participação do plano no mercado brasileiro saltará de 6% para 10%. Em São Paulo, o avanço é maior, de 8% para 15%.

Para os especialistas, parte da população terá cada vez menos oferta de preços e produtos, caso de pessoas da classe média que buscam convênios individuais com preço intermediário e que tenham serviços de saúde reconhecidos. Também as empresas que querem planos com esse perfil terão cada vez mais dificuldade na negociação de preços. Os problemas deverão ser maiores no Rio e em São Paulo, onde a Amil tem presença mais importante.

Outra preocupação é com a saúde financeira da do novo grupo no futuro, pois as incorporações não têm sido benéficas para muitas operadoras (mais informações nesta página).

Hoje, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) deve se manifestar sobre o negócio de R$ 612 milhões anunciado há uma semana e que poderá fazer da Amil o maior plano privado de saúde do País, com 5,1 milhões de clientes, incluindo os de planos de assistência médica e os de odontológicos. Segundo o Estado apurou, a operação deverá ser aprovada. No entanto, ela ainda terá de passar pelo crivo dos órgãos estatais de defesa da concorrência.

A ANS informou que só se manifestará hoje e Amil não respondeu aos pedidos de entrevista. A operadora tem destacado aos seus clientes e aos da Medial que todos os benefícios assegurados no contrato serão mantidos e que o atendimento continuará sendo realizado normalmente. A própria negociação pode ser vista como prova da eficiência, dizem pessoas ligadas à operadora.

"Em resumo, caminha-se para uma polarização do setor", diz Lígia Bahia, especialista em saúde coletiva e no mercado de planos de saúde e professora adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em uma das pontas, diz, grandes empresas, com a maioria dos usuários, ditando preços e o atendimento no Rio e São Paulo, maiores mercados do setor, e na outra, uma "franja" de "planinhos" muito baratos e com redes de atendimento questionáveis cuidando da minoria dos usuários de baixa renda.

"Os planos individuais ficarão cada vez mais difíceis de encontrar e as pessoas, mais sujeitas às armadilhas dos falsos planos coletivos", conclui Daniela Trettel, advogada do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, em referência aos planos para pequenos grupos vinculados a empresas, muitas vezes famílias, classificados como coletivos. Por não ter controle governamental de preço, a modalidade traz mais risco para o consumidor (planos individuais têm preços controlados).

"A pergunta é: quem são agora os concorrentes da Amil?", questiona Lígia. No mercado de São Paulo, a Unimed Paulistana é o principal, mas nos últimos meses a empresa sofre uma intervenção da ANS por supostos problemas econômico-financeiros.

Segundo Pedro Fazio, consultor do setor, outro possível impacto deverá ocorrer para os prestadores de serviço, pois a Amil investe em hospitais próprios em vez de contratá-los, em busca de menos custos para suas operações. "Os hospitais perderão clientes."

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