Vendas no varejo brasileiro surpreendem e sobem 1,5% em junho

As vendas no varejo brasileiro surpreenderam ao registrar alta de 1,5 por cento em junho ante maio, muito acima da expectativa do mercado. O resultado acendeu um sinal de alerta sobre os próximos passos de uma eventual política monetária mais agressiva, com mais cortes na taxa básica de juros.

CAMILA MOREIRA, Reuters

16 de agosto de 2012 | 11h24

Em relação ao mesmo período de 2011, a elevação nas vendas ficou em 9,5 por cento, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quinta-feira, com influência das medidas de estímulo adotadas pelo governo.

Analistas ouvidos pela Reuters previam que as vendas recuariam 0,3 por cento em junho sobre maio e cresceriam 6,5 por cento sobre um ano antes. As contas mensais variaram de queda de 0,90 por cento a alta de 0,75 por cento, enquanto que as anuais variaram de avanço de 5,50 a 8,70 por cento.

O desempenho de junho mostra que o principal motor da economia nos últimos trimestres voltou a mostrar força, já que em maio --quando comprado com o mês anterior--, as vendas haviam recuado 0,8 por cento.

Diante desse resultado, analistas consultados pela Reuters destacaram maior cautela em relação à expectativa de mais cortes na Selic, hoje na mínima histórica de 8 por cento ao ano. As apostas continuam fortes de que a taxa recuará para 7,50 por cento nos próximos dias 28 e 29, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne.

Mas dúvidas sobre mais movimentos em outubro começam a surgir, apesar de os especialistas entenderem que é preciso esperar mais dados para firmarem opiniões.

"Que o Banco Central reduz a Selic (em agosto), reduz. Mas os juros futuros subindo significam redução das apostas de corte em outubro. Mas é um dado apenas, ainda tem de aguardar para ver evolução da economia", afirmou o estrategista-chefe do Banco WestLB, Luciano Rostagno.

Ele referia-se aos contratos de juros futuros para janeiro de 2013, que mostravam alta nesta quinta-feira por conta dos melhores dados de varejo, indicando uma diminuição das apostas em mais um corte de 0,25 ponto percentual na Selic em outubro.

"O resultado indicou que as medidas adotadas pelo governo estão surtindo efeito no consumo. Portanto, esse número deve ajudar um pouco no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre", acrescentou ele, mantendo a previsão de que a Selic terminará o ano a 7,50 por cento.

Analistas destacaram, entretanto, que continua havendo um descompasso entre a demanda doméstica e a oferta, por conta da dificuldade do setor industrial em deslanchar diante da crise na Europa e da desaceleração na China. O mercado, por exemplo, prevê que o PIB vai crescer neste ano apenas 1,81 por cento e que a Selic encerrará a 7,25 por cento.

"O varejo influencia (a Selic), mas não ainda ao ponto de alterar (as perspectivas) no momento", avaliou o economista da Austin Rating Felipe Queiroz, mantendo sua previsão de Selic a 7,50 por cento neste ano.

Buscando reverter a estagnação da atividade, o governo já cortou impostos, aumentou a oferta de crédito e tomou medidas para diminuir a valorização excessiva do real.

VEÍCULOS E MÓVEIS

No varejo ampliado, que inclui as atividades de veículos e material de construção, a alta das vendas em junho ficou em 6,1 por cento frente a maio.

Segundo o IBGE, todas as atividades pesquisadas tiveram resultados positivos em junho na comparação mensal, com exceção de Equipamentos e material para escritório, informática e comunicação (-8,9 por cento).

Os destaques para junho ficaram para Veículos e motos, partes e peças (16,4 por cento); Móveis e eletrodomésticos (5,3 por cento); e Livros, jornais, revistas e papelaria (4,3 por cento). O segmento de Hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo registrou alta de 0,8 por cento em junho, depois de contrair 0,1 por cento em maio.

"(Em veículos e móveis) foi uma confluência da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e expansão do crédito. Ainda há espaço para o consumo das famílias crescer", disse Queiroz, referindo-se às medidas de estímulo recentemente adotadas pelo governo para esses segmentos.

Na comparação anual, ainda segundo o IBGE, também houve contração nas vendas apenas para o segmento de Equipamentos e material para escritório, informática e comunicação (-14,6 por cento). Na ponta oposta, vieram Hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (11,3 por cento); Móveis e eletrodomésticos (15,8 por cento); e Artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria (11,3 por cento).

O resultado no comércio varejista é um importante indicador da atividade econômica no país, cuja dificuldade em deslanchar é a grande preocupação do governo e principal fonte de pessimismo no mercado.

O IBGE ainda revisou os dados das venda de maio sobre igual período de 2011, passando de alta de 8,2 por cento para 8,3 por cento.

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