Venter faz da ciência um negócio milionário

Cientista que ajudou a sequenciar genoma atrai investidores para a biologia sintética

Andrew Pollack, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2010 | 00h00

O cientista rebelde J. Craig Venter chegou às manchetes - e foi comparado ao dr. Frankenstein - ao anunciar, em maio, que sua equipe havia criado o que, com um pouco de exagero, poderia ser chamado de a primeira criatura sintética viva. Dois meses mais tarde, poucos se deram ao trabalho de ouvir Venter falar de uma nova estufa que sua companhia, a Synthetic Genomics, construiu ao lado da sede em San Diego, para suas pesquisas com algas.

O contraste com o estardalhaço anterior mostra o hiato entre as espantosas realizações de Venter e suas aspirações empresariais. Admirado por suas ideias pioneiras, Venter também despertou a inimizade de seus rivais na área científica, que o consideram uma pessoa preocupada apenas com publicidade.

O cientista, de 63 anos, ganhou notoriedade como caçador de genes. Ele foi um dos fundadores da Celera Genomics, que quase ofuscou o Projeto Genoma Humano, financiado pelo governo dos EUA, na corrida para determinar a sequência completa de DNA nos cromossomos humanos.

Agora, Venter deixou de ler o código genético e passou a se dedicar a outro objetivo igualmente audacioso: elaborá-lo. Na Synthetic Genomics, ele pretende criar criaturas vivas - bactérias, algas ou mesmo plantas - projetando-as a partir do DNA para realizar determinadas tarefas industriais e substituir os combustíveis e as substâncias químicas atualmente produzidas a partir dos combustíveis fósseis. "Projetar e construir células sintéticas será a base de uma nova revolução industrial", diz Venter. "O objetivo é substituir toda a indústria petroquímica."

Até o momento, o poder que ele exerce como um verdadeiro astro da ciência permitiu-lhe levantar US$ 110 milhões em investimentos, além de centenas de milhões de dólares em financiamento para pesquisas, tornando a Synthetic Genomics uma das companhias mais ricas no novo campo conhecido como biologia sintética.

Mas ainda há muito caminho a percorrer - e sem garantia de sucesso. E, como aconteceu com o sequenciamento do DNA, Venter está provocando um certo mal-estar no campo da biologia sintética. Alguns concorrentes afirmam que projetar células inteiras é algo que está muito distante e companhias menos famosas já estão à frente da Synthetic Genomics. "Não sei quantas décadas seus financiadores lhe deram", diz Jay Keasling, da Amyris, que tenta produzir biocombustíveis e um remédio contra a malária modificando organismos existentes, e não criando organismos inteiramente novos.

Além disso, o histórico de Venter como empresário é um tanto confuso. Embora a Celera tenha conseguido sequenciar o genoma humano, não conseguiu criar uma empresa capaz de vender os dados genômicos e Venter foi demitido pelo presidente da controladora da Celera, com o qual teve vários desentendimentos.

O que realmente o move, Venter e as pessoas mais próximas a ele afirmam, é o desejo de realizações científicas, reconhecimento e a obtenção do Prêmio Nobel, com o qual ainda não foi distinguido. Uma empresa é apenas um meio para uma finalidade científica. A verdade é que seus projetos atraíram investimentos milionários de multinacionais como Exxon, BP e Novartis (mais informações nesta página).

Venter disse que fundou a Synthetic Genomics em 2005 principalmente para financiar a pesquisa sobre células sintéticas. "Acho cômico que me considerem um empresário", diz. "Se eu tive sucesso foi em descobrir maneiras alternativas para financiar a pesquisa."

Financiamento. Hamilton Smith, há muitos anos seu parceiro e Prêmio Nobel, fundou com ele a Synthetic Genomics, hoje com cerca de 130 funcionários. Mas grande parte da pesquisa, inclusive o desenvolvimento da célula sintética, é feita no Instituto J. Craig Venter. A Synthetic Genomics paga cerca de 25 dos 300 pesquisadores do instituto e tem direitos sobre seus resultados. O restante do financiamento do instituto vem de verbas federais. A empresa tem valor de mercado superior a US$ 500 milhões - Venter diz ter 15% das ações.

Venter não trabalha diretamente com tubos de ensaio ou sequências de genes há décadas. Ele só traça o curso e dirige a pesquisa. "Ele sabe exatamente o que estamos fazendo todos os dias", diz o sócio Smith, que ainda trabalha no laboratório. "Craig entra quando as coisas esbarram em um obstáculo e aponta a direção certa."

Por enquanto, Venter está onde quer estar. Como a maior parte do dinheiro da companhia vem de empresas associadas e não de investidores impacientes, ele diz que sofre menos pressões para apresentar resultados a curto prazo. "Neste momento, a ciência é o negócio", disse. "Se a ciência funciona, o negócio funciona, e vice-versa." / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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