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Ventos na contramão

O balonismo sofre um revés na sua mansidão, enquanto seu criador não descansa em paz

Mônica Manir

06 de novembro de 2010 | 16h00

O tempo não estava muito católico, mas também não parecia protestar. Passageiros, a maioria casais, tiravam fotos de si mesmos tendo atrás um forro de céu opaco. Pilotos inflavam o envelope do balão com a tranquilidade costumeira. Relatório do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais previa ventos de, no máximo, 14 km/h, com chuvas à tarde. Eram mais ou menos 8 horas da manhã. Uma aeronave tinha zarpado mais cedo e descido bem. Outras três decolaram do Centro Nacional de Paraquedismo, com intervalo de 10 minutos entre elas. Mais um sábado de aventura contemplativa em Boituva, a Cidade Emoção. Um dia de lamento para o balonismo brasileiro.

Por razões meteorológicas que, por enquanto, a investigação desconhece, duas dessas aeronaves foram pegas por um vendaval. Uma delas, com dez pessoas a bordo, entre elas uma criança, bateu no solo arado e deixou cair quatro passageiros. Logo adiante teria tocado novamente a terra antes de pousar num dos repetitivos canaviais que rodeiam a cidade. O saldo: dez vítimas traumatizadas e machucadas, algumas menos, outras mais, porém sem fatalidade.

O outro balão, que carregava nove pessoas, tentou pousar num condomínio à beira da Rodovia Castelo Branco, mas acabou levando o muro da casa de número 200 da Alameda Marfim com a sutileza de um trator. Nesse momento alguns teriam desmaiado, entre eles o piloto, e o balão, alimentado por chama intensa, voltou a ganhar altura, batendo na rede elétrica primária. Ali perdeu uma passageira, que caiu do cesto. Orientado pela equipe de apoio em terra, um homem teria assumido o que restou de controle da situação. Cinco quilômetros adiante, do mesmo lado da rodovia, ele aterrissou o cesto sobre a grade pontiaguda de uma casa na Fazenda Pinhal. Três pessoas morreram: Daniela, a moça que caiu no condomínio, seu marido, Franklin, e o piloto Antonio Carlos Giusti, vulgo AC, tido como "medrosão" pela prudência com que preparava seus vôos.

Muitas dessas informações, em especial a recuperação do trajeto das aeronaves, partiu do delegado Silvan Renosto, que uma semana antes achava que balão era "aquele negócio em que o pessoal liga um fogo e ele voa". Já mais habituado a cilindros, altímetros, queimadores, envelopes e veículos de resgate, tentou explicar para as famílias afetadas pela tragédia que os passageiros correram mais risco estatístico ao viajar de carro até Boituva do que ao optar pelo passeio num aeróstato. Reproduzindo o que disse Leonel Brites, vice-presidente da Confederação Brasileira de Balonismo, cravou: é o esporte aéreo mais seguro do mundo.

Brites contabiliza 80 condutores de balão voando no País e uma média de 12 eventos anuais - o último, o 23º campeonato brasileiro realizado em São Carlos, em julho. "Nunca tivemos nenhum acidente com vítima, esse caso em Boituva foi o primeiro no Brasil", afirma. Apesar de compatível com a carteira de poucos (cerca de R$ 250 por pessoa para um voo de 1 hora), os passeios têm fila de espera em algumas empresas, fila por vezes acumulada por causa do clima instável, que manda de volta para casa quem acordou de madrugada em busca do aniversário perfeito.

O Padre Voador. Exigir precisão absoluta de um transporte cujo norte pode virar leste em uma rajada e que, além de tudo, não retorna ao ponto de partida com as próprias asas seria pedir deverasmente. Não teria sido essa a proposta, aliás, do seu mentor, o padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão. Em requerimento a d. João V, rei de Portugal, ele pediu exclusividade para desenvolver um balão a ar quente pensando em auxiliar o Exército e as navegações, o que demonstrava visão à frente do seu tempo, e não uma carta de fiança de trajeto impoluto.

Bartolomeu nasceu na vila paulista de Santos em 1685 e seu registro de batismo levava, inclusive, o nome da cidade natal: Bartolomeu Lourenço Santos. A troca pelo Gusmão surgiu como homenagem a Alexandre de Gusmão, amigo íntimo de seu pai e fundador do seminário onde estudou. Sete dos seus 11 irmãos seguiram a carreira eclesiástica, mas apenas dois, mais ele próprio, mudaram o sobrenome.

Na Bahia, Bartolomeu completou o curso de Humanidades e se filiou à Companhia de Jesus. Adolescente, cruzou o Atlântico até Portugal, onde sua memória fazia estrago em egos alheios. Num parágrafo de Memorial do Convento, que de tão propositalmente comprido aqui segue pela metade, José Saramago relata esse pormenor (ou pormaior) de Bartolomeu: "... sendo moço de quinze anos, prometia, e muito fez do que prometeu, dizer de cor todo Virgílio, Horácio, Ovídio, Quinto Cúrcio, Suetónio, Mecenas e Séneca, para diante e para trás, ou donde lhe apontassem, e dar a definição de todas as fábulas que se escreveram, e a que fim as fingiram os gentios gregos e romanos, e também a dizer quem foram os autores de todos os livros de versos, antigos e modernos, até ao ano de mil e duzentos...".

Estudioso de Astronomia, Mecânica, Física, Química e Filologia, o padre também avaliava fenômenos naturais, como folhas ou cascas de fruta subindo a partir de uma fogueira. Foi donde teria se inspirado para criar um objeto de papelão que levantava voo movido por ar quente. A experiência foi apresentada a d. João V e à Casa Real duas vezes, em vão. Numa delas, o balão ardeu no solo. Na outra, ameaçou queimar as cortinas do palácio. Na terceira, o aeróstato ascendeu gentilmente no pátio da Casa da Índia, caindo no Terreiro do Paço. O ano: 1709.

De arredondado, o invento tomou a forma de uma passarola no imaginário da população. Alguns dizem que a transformação partiu de Bartolomeu, que queria evitar as reproduções e autorizou um aluno a falsear o desenho. O navio voador, porém, gerou ironia e desconfiança e foi somente a partir do balão tripulado pelos irmãos franceses Montgolfier, em 1783, que Portugal resolveu abraçar a criança, também chamada de Balão de São João, em alusão ao rei.

O Padre Voador não testemunhou o reconhecimento de sua obra. Acossado pela Inquisição, sumiu no mundo. Uns dizem que a Igreja o perseguia por desafiar a natureza e os desígnios divinos, outros porque se converteu ao judaísmo. Já o biógrafo Benedito Calixto, avalizado pelo escritor Affonso d’Escragnolle Taunay, pesquisador da vida do sacerdote, dizem que o problema era de alcova: Bartolomeu teria se apaixonado por Madre Paula, a freira Trigueirinha, que era amante de D. João e a quem, inclusive, dera um filho. Intriga ou não da Inquisição, o fato é que Bartolomeu se quedou na Espanha, onde morreu provavelmente de tuberculose, aos 39 anos.

Seus restos mortais só retornariam ao Brasil em 1966. Foram guardados no Museu de Aeronáutica, localizado no Parque do Ibirapuera, depois em uma igreja em Cotia, então no Mosteiro de São Bento, na capital paulista, e por fim na cripta da Catedral da Sé, onde divide o subterrâneo com bispos de São Paulo, os despojos do índio Tibiriçá (o defensor da cidade) e os ossos do Padre Feijó (o tutor da Pátria). Ali, no mês de agosto, a FAB comparece para missa solene em homenagem ao Pai da Aeroestação.

No Dia de Finados último, poucos se deram conta da presença do Padre Voador na missa realizada na cripta em meio a colunas, arestas, balaustradas e esculturas de São Jerônimo e Jó. Mais do que a extrema discrição, incomoda a alguns santistas, em especial a Paulo Monteiro, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Santos, a insistência da Arquidiocese de São Paulo em manter a urna do padre em subsolo da capital.

"Temos recortes de jornal datados de 1966 em que o presidente Castelo Branco afirma que iria participar do cortejo dos restos do padre até Santos", diz Monteiro. "Falta bom senso, Bartolomeu não tem dono, leva o nome de Santos para o mundo, enquanto em São Paulo é apenas mais um", insiste. Nessa linha de raciocínio, Monteiro também pleiteia a ida para o litoral de Alexandre de Gusmão, irmão de Bartolomeu, que foi secretário particular de D. João e um dos norteadores do Tratado de Madri. Alexandre é visto como progenitor da diplomacia no Brasil.

No que concerne a Bartolomeu, a Cúria Metropolitana avisa, por meio de seu departamento jurídico, que a argumentação do município santista até então não foi suficiente e que aguarda mais documentos. Monteiro diz que eles estão a caminho e volta a vociferar: "Tem que ter grandeza interior". Palavras tivesse, o padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão talvez se manifestasse pelas alturas, em vez de ser transferido para outra cripta, já que criou o aeróstato, porém nunca embarcou nele. Saramago lhe confere um desejo fictício, mas perfeitamente verossímil: "E quando tudo estiver armado e concordante, voarei".

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