Vergara e Pizarro: o gosto por misturas incomuns

Os dois artistas mostram no MAM do Rio trabalhos distintos, mas revelam uma preocupação com suportes pouco convencionais, de lenços e papel craft a parafina

Roberta Pennafort, Rio, O Estadao de S.Paulo

03 Dezembro 2009 | 00h00

Obras de arte que se utilizam de suportes pouco convencionais estão em exposição em dose dupla no Museu de Arte Moderna do Rio. No salão monumental, estão 200 trabalhos de Carlos Vergara, dos anos 60 para cá, sobre lenços, cortes de poliéster, papel craft; na entrada, foi alocada Morros Velados, a pequena mostra de Luiz Pizarro, com 20 trabalhos inéditos à base de parafina produzidos nos últimos três anos.

Carlos Vergara: A Dimensão Gráfica - Uma Outra Energia Silenciosa fica no MAM até 14 de março. É uma oportunidade de conhecer um Vergara que vai além da pintura. O foco está no desenvolvimento de sua linguagem gráfica, por meio de monotipias (em lenços, por exemplo), desenhos (como as que resultaram em camisetas de blocos de carnaval), fotografias (em especial, registros do carnaval carioca, em parte tridimensional) e gravuras.

"Achei que este era um novo olhar sobre o trabalho, e muito interessante", diz Vergara, ao comentar o recorte feito pelo curador George Kornis, de cuja coleção saiu parte das obras. Uma outra veio do acervo pessoal de Vergara, que até pouco tempo atrás estava "acumulado de forma não-científica" em seu ateliê de Santa Teresa. Quem o ajudou a colocar tudo em ordem foi o filho, João. "Eu produzo coisas e vou me apaixonando por algumas, querendo que elas fiquem perto de mim."

O mural Nara (2001), de 7 m x 2,10 m, impressiona já na entrada. O Painel de Veneza, de 20 metros de comprimento, que foi para a edição do festival italiano de 1979 e integra a Série Carnaval, nunca havia sido exposto no Rio. É uma boa amostragem de décadas de uma produção que não para - na exposição, há trabalhos de 2008 e deste ano. Vergara não gosta de voltar-se ao passado. "O termo "retrospectiva" parece que é relativo a alguém que está no fim do caminho, olhando para trás. Estou em plena produção."

Revelado na mostra coletiva Como Vai Você, Geração 80?, realizada em 1984 no Parque Lage, no Rio, com artistas como Beatriz Milhazes, Daniel Senise e Jorge Guinle, Pizarro é um carioca radicado há dois anos em São Paulo. A distância de sua cidade - em períodos diferentes, ele morou em Colônia, na Alemanha, e em Paris - fez com que seu olhar sobre a cidade em que nasceu se tornasse um pouco estrangeiro.

Ele procurou, na internet, fotografias do Rio feitas por turistas. A partir delas, criou imagens que remetem a cartões postais, como o Cristo Redentor, o Pão-de-Açúcar e a Lagoa Rodrigo de Freitas, e a morros tomados por favelas. Por vezes, a paisagem carioca é invadida por gárgulas da Catedral de Notre Dame, "lembranças" de Paris que ele associa às brasileiríssimas carrancas do Rio São Francisco.

A parafina é de velas comuns e é "colorida" de preto. No caso das peças maiores, foram gastas até 500 velas. Pizarro já havia trabalhado com o material por volta de 1995, quando ele estava na Alemanha. Foi uma descoberta por acaso, lembra o artista. Ele estava fazendo experiências no ateliê e percebeu que, ao cobrir as velas derretidas com papéis impressos, a tinta passava para a parafina. Por volta de 2004, voltou a usar o material.

Pizarro já expôs obras do gênero no Paço Imperial, no Rio, e na Galeria São Paulo. No caso das de Morros Velados, sua reflexão tem a ver com a dicotomia entre a autoimagem da cidade e como ela é vista de fora. "Essa é uma maneira de falar da gente. O distanciamento fez com que eu tivesse menos o olhar de pai e mãe, que protege. O Rio é maravilhoso, mas temos problemas." A exposição fica no MAM até 3 de janeiro.

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