Vestígios jogam luz sobre migração para a América

Nos EUA, descobertas arqueológicas indicam que a ocupação do território começou 2 mil anos antes do imaginado

, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2011 | 00h00

NOVA YORK

Durante muitos anos, os cientistas acreditavam que os primeiros americanos vieram da Ásia há 13 mil anos, na última era do gelo, provavelmente pelo Estreito de Bering. Eram conhecidos como homens de Clovis, cidade do Novo México na qual foram encontradas suas pontas de lança, em 1929. Mas, recentemente, os arqueólogos descobriram traços cada vez mais numerosos de um povo anterior, de tecnologia menos refinada, que deve ter habitado a América do Norte e pode ter se espalhado até o Chile.

Evidências convincentes do misterioso início da ocupação do território americano parecem ter surgido para quase todos os cientistas no vale de um córrego em um local montanhoso na região central do Texas.

Os novos vestígios estabelecem que a última importante migração humana para as Américas começou mais cedo do que se pensava. E a descoberta poderá mudar o que se conhece a respeito da chegada do homem ao continente e da sua adaptação, em parte aprimorando a técnica da fabricação de utensílios que levou ao conhecimento tecnológico relacionado à cultura Clovis.

Arqueólogos e outros cientistas relatam na revista Science que escavações mostram que caçadores-coletores viveram no sítio de Buttermilk Creek e fizeram durante muito tempo pontas de flechas, lâminas e outros instrumentos com o sílex do lugar, possivelmente há 15,5 mil anos. Mais de 50 artefatos bem acabados, além de centenas de lascas e fragmentos, estavam enterrados nos sedimentos de argila abaixo do material típico de Clovis.

Para Michael Waters, diretor do Centro de Estudos dos Primeiros Americanos da Texas A&M University e chefe da equipe que fez a descoberta, suas pesquisas "confirmam que o ser humano ocupou as Américas antes da civilização de Clovis".

Além disso, se as migrações começaram mais cedo, extensas geleiras provavelmente bloquearam corredores internos onde não havia gelo, o que possibilitariam a migração para o sul. Os arqueólogos afirmaram que isso permite que se dê crédito a uma ideia nova: talvez esse povo tenha chegado ao Novo Mundo por uma rota costeira, ao longo das praias e às vezes em pequenos barcos. Isso explicaria os movimentos relativamente rápidos dos migrantes até Peru e Chile.

A primeira das pontas de flecha que caracterizam a civilização de Clovis representou habilidade avançada na técnica em trabalhar a pedra. A cerca de um terço a partir da base da ponta, os artesãos cavavam sulcos rasos, em ambas as faces. Os sulcos bifaciais provavelmente permitiam amarrar as pontas a uma lança ou dardo de madeira.

Outros arqueólogos destacaram que as datas de Buttermilk Creek, mais de 2 mil anos antes de Clovis, não são significativamente mais antigas que as de outros sítios que contestam a hipótese do início da colonização do continente em Clovis. Nos últimos anos, os locais das primeiras ocupações humanas foram examinados em todo o território americano.

Semelhanças. James M. Adovasio, arqueólogo que encontrou o que parece ser um material anterior à civilização de Clovis em Meadowcroft Rockshelter, na Pensilvânia, não estava envolvido nas escavações de Buttermilk Creek, mas visitou o sítio e inspecionou muitos dos artefatos. Essas pontas de projétil anteriores aos vestígios encontrados em Clovis eram também bifaciais, mas não tão grandes nem tão refinadas. A diferença mais notável era a ausência dos sulcos.

Adovasio, professor da Universidade Mercyhurst em Erie, disse que parte do material encontrado em Buttermilk Creek se assemelha a ferramentas presentes nos sítios em que ele trabalha em Cactus Hill, Virgínia, e em Miles Point, Maryland.

"Parece que a comparação entre os artefatos mostra diferenças suficientes em relação ao material de Clovis, mostrando ser uma tecnologia diferente", afirmou o arqueólogo. "Mas as diferenças não são tão grandes a ponto de não serem modelos mais antigos do material encontrado em Clovis." Essa é outra implicação provável das novas descobertas, também assinalada por Waters e sua equipe. Parece que a tecnologia de Clovis não foi importada da Ásia, mas inventada aqui. / NYT. TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA E AUGUSTO CALIL

Achado

MICHAEL WATERS

DIRETOR DO CENTRO DE ESTUDOS DOS PRIMEIROS AMERICANOS

"É o mais antigo sítio arqueológico confiável da América do Norte."

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