‘Vi pessoas gritando por socorro e muitas casas destruídas’

O relato de quem presenciou a explosão em Nagasaki

Camila Anauate,

27 de abril de 2008 | 17h12

Era mais uma manhã de trabalho no navio da marinha japonesa, mas Yoshitaka Samejima, aos 16 anos, só pensava na bomba que atingira Hiroshima três dias antes. As notícias chegavam pelo rádio enquanto a embarcação se aproximava de Nagasaki. A poucos metros da costa, o primeiro susto. O motor quebrou e o barco ficou à deriva. Trinta minutos depois, o horror. Foi na sombra, em uma ilha, que Samejima ouviu a explosão e viu subir uma fumaça densa e brilhante. Impossível desembarcar em Nagasaki naquele 9 de agosto de 1945. O navio de Samejima ancorou em outra base e só voltou no dia seguinte para ajudar as vítimas. Samejima vestia roupa especial, luvas e máscara. "A ordem era não mexer nos mortos e atender os feridos com chance de sobreviver. Havia muitas mulheres e crianças", lembra. Ele ficou apenas dois dias na cidade, o suficiente para nunca mais esquecer as cenas de terror. "Pelas ruas, corpos jogados, pessoas em carne viva gritando socorro e casas destruídas." Nascido no Brasil - seus pais chegaram aqui em 1909 -, Samejima foi estudar no Japão aos 11 anos e aos 15 entrou para o serviço militar. Depois da guerra, casou, teve dois filhos e só voltou para cá em 1960, porque o pai estava doente. "Não queria voltar, mas sei que foi melhor." Aqui, Samejima trabalhou na plantação de verduras e se orgulha de ter formado os filhos na USP. Desde 1960, voltou dez vezes ao Japão. Só uma para Nagasaki, no ano passado, para tratar das seqüelas da radiação. "Tudo está diferente. Ainda assim, fiz esforço para não lembrar de nada".

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