Viagem ao passado num dia de emoção

Ex-prisioneiros do Apartheid voltam a Robben Island

Almir Leite, Cidade do Cabo, O Estadao de S.Paulo

04 Dezembro 2009 | 00h00

A reunião da Fifa ontem, em Robben Island, foi uma viagem ao passado para cinco prisioneiros políticos dos tempos em que a África do Sul manchava a história com o Apartheid. Não foi, porém, uma viagem amarga para Tokyo Sexwale, Anthony Suze, Lizo Sitoto, Sedick Isaacs e Mark Shinners. Ao contrário, relembraram com alegria uma coisa boa, talvez a única, daqueles tempos de opressão. O futebol que jogavam com afinco, disciplina e regra, a ponto de criarem uma associação, a Makana Football Associacion.

Foi difícil para aqueles prisioneiros negros, agitadores para o regime, convencerem os administradores do presídio a permitirem que jogassem bola. Eles insistiram, pelo amor ao futebol e por um outro motivo, recordado ontem pelo falante Suze.

"O campo de futebol era o único espaço onde nos sentíamos livres"", disse, com vigor. "Os carcereiros estavam ali, com suas armas, vigilantes, mas quando estávamos nesse campo, eles não existiam. O futebol nos mantinha vivos.""

A Makana seguia as regras da Fifa - por causa disso e pela luta contra intolerância, foi reconhecida pela entidade em 2007 com a condição de membro - e chegou a tal nível de organização que comandou campeonatos com até nove equipes. "Com a bola rolando, não havia briga, diferenças políticas entre nós"", recordou Suze, enquanto pisava novamente no campo de grama rala, praticamente inexistente, com um gol sem rede e sem travessão e outro torto e com a rede rasgada. Campo cercado por arame farpado e um muro, construído para que Nelson Mandela não pudesse nem ver o jogo da cela 466, onde passou a maior parte dos 18 anos em que esteve trancafiado em Robben Island. Mandela não pôde ir ontem à ilha. Aos 91 anos, está debilitado. Nem estará hoje no sorteio dos grupos de uma Copa que vai ser na África do Sul graças a seu sonho e visão de futuro. Durante a cerimônia, mandará mensagem por vídeo.

Suze estará na plateia e vai lembrar do amigo. Aliás, diz não se esquecer de Mandela, assim como não esquece de Robben Island. "Aqui é minha casa. Passei entre essas paredes mais tempo do que em qualquer outro lugar que morei.""

Tokyo Sexwale, hoje membro do Comite Disciplinar da Fifa, também recordou com bom humor dos tempos bons da associação Makana. E, brincando, disse que nos times só craques jogavam. " Os brasileiros e os ingleses não têm o talento e a habilidade que tínhamos aqui.""

Um dos homens que redigiram a Constituição Sul-Africana em 1994, Sexwale tem uma noção precisa do significado do fechamento da prisão de Robben Island, com o fim do Apartheid. "Representa que, enfim, a África do Sul faz parte do mundo atual.""

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