Viajante ecofriendly não deve impor hábitos

Pelo caminho, turista deve estar preparado para esbarrar em outras culturas com diferentes percepções ambientais

Gustavo Bonfiglioli e Ana Bizzotto, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2011 | 00h00

Os viajantes Cassiano Freitas e André del Gaudio, que rodam a América Latina de carro, passaram este mês por Puerto Cisne, cidade de 5 mil habitantes no sul do Chile, onde ficaram na casa de uma família simples. Ao ouvir os relatos de que o automóvel da dupla estava lotado de lixo porque não havia, na região, coletava seletiva, a dona da casa se espantou. "Ela nos olhou como se fôssemos de outro planeta. Aqui você fala em coleta seletiva e ninguém sabe o que significa", conta Cassiano.

Como qualquer viagem, a road trip sustentável também esbarra em obstáculos culturais. "A viagem é transformadora da sociedade pois promove o encontro de realidades diferentes e, nessa troca, é que surge o novo. Os anfitriões chilenos podem não ter entendido toda a bagagem técnica que significa a reciclagem, mas com certeza o encontro com pessoas diferentes deixou alguma impressão neles", diz Thiago Beraldo, analista ambiental especializado em ecoturismo do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Sendo ou não amistoso o encontro do viajante e do nativo, os especialistas parecem concordar que essa percepção da diferença deve ser incluída no planejamento da viagem. "Para fazer uma viagem verde e transfronteiriça é preciso que se realize uma boa pesquisa da cultura, do modo de vida e até da legislação dos destinos", salienta Beraldo.

Lemuel Rex, da SOS Mata Atlântica, concorda. "É preciso incluir todos os aspectos socioculturais e ambientais ao planejar a viagem. Não basta selecionar roteiros, hotéis e destinos se eles não estão alinhados com o objetivo da expedição."

O viajante André Pasqualini, por exemplo, não contava com alguns desses aspectos. Ele vai rodar por biomas brasileiros até o fim de fevereiro e não encontra local adequado para jogar o lixo estocado em sua bicicleta. "Produzo pouco lixo, mas recolho tudo que vejo pelo caminho. A bike vai ficando pesada e tenho de jogar no lixo comum porque as cidades por onde passei não têm coleta seletiva; o lixo é queimado ou jogado em aterro."

Beraldo sustenta que o viajante deve ter cuidado ao lidar com as diferenças culturais que encontra. "O turismo sustentável traz em si a ideia do conhecimento do novo. Não precisamos abandonar nossas crenças, mas também não podemos intervir e condenar toda ação que não seja condizente com elas."

Às vezes, nossos maus hábitos acabam influenciando outras culturas. Em sua expedição de bike, Pasqualini observou alguns reflexos que a cultura ocidental de consumo exerceu em populações indígenas, como a queima de lixo. "Eles estão consumindo muitos produtos industrializados e virou coisa natural para eles jogar lixo no chão."

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