Vice-prefeito de Treviso quer ''limpeza étnica contra gays''

Declarações geraram protestos inclusive no Parlamento da Itália.

Valquíria Rey, BBC

10 de agosto de 2007 | 09h09

O vice-prefeito de Treviso, no nordeste da Itália, Giancarlo Gentilini, abriu uma polêmica no país ao defender limpeza étnica contra os homossexuais.Conhecido como xerife Genty, ele prometeu varrer todos os gays da cidade durante entrevista a uma emissora de televisão. "Darei rapidamente autorização a minha chefe de Polícia para que seja feita uma limpeza étnica dos gays", disse Gentilini, ao descobrir que um estacionamento da cidade tinha sido transformado em ponto de encontro e troca de casais. "Eles devem ir para outras capitais de regiões dispostas a aceitá-los. Aqui em Treviso não há nenhuma possibilidade para gays e similares".Gentilini, que já se apresenta como candidato a prefeito do partido de direita Liga Norte para as próximas eleições, prometeu reforçar o sistema de vídeo-vigilância na cidade, mas garantiu ter um método mais eficiente para "exterminar" os homossexuais."Para mim interessa mais que seja feito o controle visual pessoal", afirmou. "Quando a minha polícia vigiar a zona será um corre-corre geral."As duras declarações do vice-prefeito acabaram gerando protestos de representantes de associações que defendem os direitos dos homossexuais, bem como de parlamentares de direita e de esquerda."A expressão limpeza étnica lembra tragédias da história que trouxeram luto e sofrimento a milhões de pessoas", assinalou a ministra para a Família Rosy Bindi. "Ninguém, sobretudo aqueles com responsabilidade pública, tem autorização para usar linguagem ofensiva, que alimenta inaceitáveis discriminações."Arcigay, a mais importante associação de defesa dos homossexuais italianos, está organizando um protesto em frente à sede da Prefeitura de Treviso."Todos os democratas do país estão convidados a protestar conosco, usando um triângulo rosa no peito, símbolo dos homossexuais presos nos campos de concentração", disse Alessandro Zan, presidente da Arcigay da região do Vêneto. "Vamos protestar com beijos de casais gays, embaixo da janela do gabinete dele."Franco Grilini, deputado da Esquerda Democrática, criticou as palavras duras do vice-prefeito. De acordo com ele, Gentilini cometeu um delito, de acordo com a lei existente no país contra o racismo e a homofobia. O parlamentar foi taxativo: ele deve se demitir. Até mesmo Roberto Calderoli, líder do partido de Gentilini, não poupou críticas à expressão "limpeza étnica". Outras lideranças da centro-direita italiana consideraram as palavras do vice-prefeito intolerantes, desrespeitosas e com ausência de civismo. Essa não é a primeira polêmica protagonizada por Gentilini. Na Itália, ele é conhecido por suas declarações e ações contra minorias. Imigrantes, prostitutas, muçulmanos, ciganos e dependentes de drogas são suas principais vítimas.No período em que era prefeito de Treviso, mandou remover alguns bancos das praças da cidade, para evitar que os mendigos 0s usassem para dormir. Em 2002, ele decretou tolerância zero e tentou expulsar um grupo de imigrantes que ocupava uma igreja da cidade e implorava por um lugar para ficar. Três anos depois, defendeu que as muçulmanas fossem proibidas de usar burcas e roupas tradicionais na Itália, alegando que as roupas poderiam servir de disfarces terroristas disfarçados. Recentemente, reclamou das mulheres de Treviso, dizendo que elas usavam pouca roupa e estariam predispostas ao adultério. "Se elas fossem muçulmanas, seriam todas apedrejadas", assinalou.O "xerife" Genty também já defendeu impedir com tiros de espingarda a entrada dos imigrantes ilegais que chegam pelo mar na Itália."Vamos atirar contra os imigrantes, para que retornem de onde vieram", disse certa vez.Em outra ocasião defendeu que eles fossem vestidos de lebres, para exercitar os caçadores locais.Quando soube que suas declarações contra os homossexuais tinham gerado enorme polêmica no país, Gentilini foi irônico."Falta pouco para uma intervenção da ONU", brincou.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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