Vídeo das Farc sobre líder morto desperta suspeitas

Vídeo sugere que Timotchenko pode ser novo porta-voz da guerrilha.

Hernando Salazar, BBC

27 de maio de 2008 | 14h00

O vídeo em que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) anunciaram a morte do líder Manuel Marulanda, ou "Tirofijo" ("Tiro Certo", em tradução livre do espanhol), levantou uma série de perguntas e suspeitas.Uma das questões é por que o vídeo não mostra o enterro ou o túmulo de Marulanda, cuja causa da morte permanece um mistério, ao contrário de anúncios semelhantes feitos pelas Farc no passado.O vídeo de 12 minutos mostra Timoleón Jiménez (Timochenco), um líder histórico do grupo, mas pouco conhecido da imprensa, falando sobre a morte de Marulanda. O vídeo tem data de maio de 2008 e foi transmitido no último dia 25, mas pode ter sido filmado antes do dia 24, data em que o governo colombiano anunciou a morte de Marulanda.Analistas entrevistados pela BBC Mundo afirmam que a divulgação do vídeo estava prevista para o próximo dia 28, quando se completam 44 anos da fundação das Farc, mas o vídeo teria sido divulgado antes por conta do anúncio do ministro da Defesa, Juan Manuel Santos, sobre a morte de Tirofijo.Segundo o diretor do Instituto para Desenvolvimento e Paz, Camilo González, "as Farc estavam esperando que a maré baixasse para revelar o vídeo, mas o anúncio de Santos precipitou as coisas"."Cruzaram-se o ritmo das Farc, que é lento, com os serviços de inteligência do Exército colombiano", diz González.Três câmeras e pós-produçãoAlém disso, o vídeo foi gravado com o uso de três câmeras e foram utilizados recursos de pós-produção, o que indica meios mais sofisticados do que o normal.Apesar de Timoleón Jiménez se despedir como se estivesse "nas montanhas da Colômbia", a vegetação mostrada indica que o vídeo parece ter sido filmado em uma zona de clima quente."Pelas palmeiras, (o vídeo) parece ter sido gravado em uma região perto de uma praia", diz Antonio Sanguino, que militou na guerrilha do Exército de Libertação Nacional (ELN) até 1994 e hoje é vereador em Bogotá. "Isso não foi gravado na selva, nem (nas savanas) em Yarí, nem no Guaviare (região à beira de um rio, no sudeste da Colômbia)", acrescenta. "A paisagem não tem nada a ver com as últimas provas de sobrevivência de Ingrid Betancourt."Segundo Sanguino, o vídeo "dá a impressão de que tudo é muito pré-fabricado".Em entrevista à BBC, o filósofo e escritor Armando Silva, especialista em semiologia, ressalta que o vídeo mostra uma cerca de arame, "e isso indica que pode ter sido gravado em uma propriedade privada"."Mudança paradoxal"Além do lugar em que foi gravado, Silva afirma que o uso da televisão para anunciar a morte de seu chefe máximo marca uma mudança importante nas Farc."As Farc entraram em uma nova era da comunicação, e se planeja uma nova relação entre televisão e política", diz o filósofo. "O vídeo tem uma mensagem de ruptura com as Farc camponesas e nos mostra as Farc do glamour e da imagem."No entanto, Silva chama a atenção sobre um paradoxo porque, ao mesmo tempo em que as Farc apresentam uma imagem "moderna", o discurso de Timochenco "é abertamente dos anos 50".Está claro também que se trata de uma mensagem como as das guerrilhas dos anos 60, que depois do triunfo da Revolução Cubana afirmavam que iam tomar o poder e impor um regime comunista.Mas Sanguino afirma que é preciso observar o que o discurso não diz e esconde."Esconde que as Farc sofreram um golpe com as mortes de Negro Acacio, Martín Caballero, Raúl Reyes, Iván Ríos e Manuel Marulanda e com a captura de Martín Sombra e a rendição de Karina", diz Sanguino.Segundo o vereador, diante da desmoralização entre os guerrilheiros, o discurso de Timochenco é "mais uma mensagem aos guerrilheiros das Farc e à base social mais próxima à guerrilha".Sanguino ainda afirma que a escolha de Timochenco para anunciar a morte de Marulanda pode ser um sinal de que o líder pode ser o novo porta-voz das Farc, substituindo Raúl Reyes, morto em uma ação do governo colombiano em março passado.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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