Vídeos mostram PMs e supostos seguranças atirando com armas letais em protesto no Rio

Atingido nos dois antebraços, Rodrigo Azoubel, de 18 anos, foi operado e não corre riscos

Felipe Werneck, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2013 | 21h30

RIO - Vídeos divulgados nesta quarta-feira, 16, mostram policiais militares e supostos seguranças atirando com munição letal durante a manifestação ocorrida no centro do Rio na noite da última terça-feira, 15, em apoio aos professores, que estão em greve há dois meses. Pela primeira vez desde o início dos grandes protestos, em junho, um manifestante foi baleado com arma de fogo no Rio. Atingido nos dois antebraços, Rodrigo Azoubel, de 18 anos, foi operado e não corre riscos, mas deverá ficar internado por mais uma semana.

Os dois homens sem farda flagrados atirando durante a manifestação nas imediações da Cinelândia seriam seguranças de uma instituição privada de ensino superior, segundo denúncia investigada pela Coordenadoria de Inteligência da PM. As imagens, divulgadas pela TV Globo, mostram os dois atirando atrás de uma banca de jornal. Outros vídeos, dos jornais online "A Nova Democracia" e "Zona de Conflito Mídia Independente", mostram PMs atacados com paus e pedras na esquina da ruas México e Araújo Porto Alegre recuando, sacando pistolas e atirando. Vários tiros foram disparados nos fundos do Museu Nacional de Belas Artes.

"Eu vou largar o aço pra dentro de vocês, estou avisando", ameaça um dos policiais em uma cena do primeiro vídeo anterior aos disparos, do outro lado do museu, na Avenida Rio Branco. Azoubel foi baleado por volta de 20h30 na Rua Santa Luzia, que fica a dois quarteirões.

Advogados recolheram pelo menos 13 cápsulas de balas após os protestos no centro. O vídeo do "Nova Democracia" também mostra tiros na Lapa.

Um dos fotógrafos do "Zona de Conflito", Ruy Barros, está entre os 190 detidos durante os protestos na noite de terça, sob acusação de dano ao patrimônio público, roubo, incêndio e formação de quadrilha ou bando.

A PM afirma que abriu uma investigação para identificar os PMs que usaram armas letais - policiais do Rio estão proibidos de usar balas de borracha em manifestações desde o início do mês. Os dois atiradores sem farda não foram apontados como integrantes do serviço reservado da corporação. "Não temos (informação de) que sejam policiais. A PM informou preliminarmente que não havia policiais armados escalados para aquele serviço. Temos a obrigação de saber quem são. Sejam policiais ou não terão de responder sobre o uso de arma de fogo em via pública", disse o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame.

O advogado Marcelo Chalréo, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ, que esteve na clínica onde Azoubel está internado, na Gávea, zona sul, questionou o fato de policiais da Corregedoria da PM terem procurado a vítima de madrugada no hospital. "O objetivo claro era recolher o projétil. Isso dificultaria a investigação. É um indício grave. O que querem ocultar? Por que estiveram aqui antes da Policia Civil?" A secretaria de Segurança confirmou que integrantes da corregedoria estiveram na clínica, mas afirmou que o objetivo era apurar a suspeita de envolvimento de policiais.

De acordo com o delegado Orlando Zaccone, que conversou com Azoubel acompanhado de Chalréo e do advogado da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio, Tomás Ramos, ele não soube informar de onde veio o disparo. "Disse que não ouviu nem sequer barulho, sentiu uma dormência no braço e foi atendido por voluntários. Sem os primeiros-socorros prestados por estudantes de Medicina, poderia estar morto, segundo informações de médicos do hospital", disse o delegado. "Aparentemente foi um tiro de pequena distância, porque fotos dos ferimentos indicam a presença de pólvora.

Só a investigação poderá dizer o que ocorreu, mas quem participa de manifestações não pode ser tratado à bala", afirmou Chalréo.

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