Vinhos brasileiros bem guardados

Esta foi uma degustação vertical que conduzi durante o Paladar - Cozinha do Brasil. Não foi exatamente assim, porque não tive a coerência do texto escrito enquanto falava. Tem gente que nasceu para ir lá na frente, eu não, não funciono ao vivo. Desprovido de fluência em público, fiquei tenso.

Glupt!, por Luiz Horta,

11 de agosto de 2011 | 17h34

A intenção ao reunir cinco safras antigas do Merlot da vinícola Dal Pizzol (a mais antiga, de 20 anos, e a mais recente, de 7) foi provar que todo vinho pode ganhar com a passagem do tempo. E que muitos vinhos brasileiros têm as qualidades para um período considerável de guarda.

O gosto da época vai se formando em torno de vinhos muito jovens, bem frutados e com taninos ainda duros, no caso dos tintos. Cada momento na história do consumo de vinhos elegeu seus estilos e não há problema algum nisso - afinal, vinho também tem moda, sendo parte da cultura. Mas beber só vinhos recém-feitos e engarrafados nos privam de delícias: os aromas diferentes e sabores complexos que os processos químicos orgânicos acontecidos nas garrafas guardadas nos dão.

Vinhos são um pouco como nenês - quando nascem, se parecem bastante. Os pais, orgulhosos, mostram fotos daquelas bolotinhas sem pelo e dizemos: "Que lindo! Sua cara!". Mas é mentira. No fundo eles são o projeto de algo mais interessante que só se apresentará alguns anos depois, quando falarem e andarem.

A uva fermentada acabada de produzir mostra os sabores e aromas de... uva fermentada. Leves traços de cada casta, madeira bem potente, álcool; só vão ter personalidade e falar sobre o que são e serão quando crescerem um pouco, como as crianças. Mesmo espumantes mais encorpados e finos ganham com uma pequena espera, um ou dois anos antes do espoucar. O mito é que Bordeaux guarda uma fórmula, quase uma magia, de como envelhecer bem, com seus enólogos brincando de Dorians Grays bem-sucedidos.

Na verdade tenho feito sucessivas provas de vinhos sul-americanos e em grande parte eles apreciam o estágio no escuro das adegas. Não tanto como os 30 anos de um claret (Bordeaux evoluído, para os ingleses), mas, sem erro, uns bons 10 anos.

No evento do Paladar foram quatro verticais. As outras três serão contadas aqui nas próximas semanas. Todos os vinhos estavam entre bons e muito bons, alguns excelentes.

 

Da esquerda para direita : (1) O 1991 foi incrível, tinha notas de evolução, mas estava tão vivo que abri a segunda garrafa para comparar. Era idêntica, com acidez deliciosa. Duas garrafas de um vinho brasileiro com duas décadas de idade em perfeito estado e ótimos para beber. Meu amigo Pagliari, que estava na plateia, disse: "Falta comida para acompanhá-los". Era verdade (2) O 1993, ao contrário, já tinha entrado na curva descendente. Ainda bebível, mas morrendo. (3) O 1999 foi foi prazer puro, no auge, exuberante, taninos finos e acidez elétrica. Fantástico (4) O 2003 é um vinho bem feito, com potencial, pela ótima acidez, bom corpo, elegante. Precisa de tempo (5) O 2004 tinha os taninos algo secantes e menos acidez

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