Violência expõe educação precária

Para especialistas, caso também reflete agressividade reprimida

Karina Toledo e Mariana Mandelli, O Estadao de S.Paulo

31 Outubro 2009 | 00h00

Um evento catártico pelo qual estudantes extravasaram a agressividade reprimida no cotidiano violento e um retrato da precarização da educação no País. É a leitura que especialistas fazem sobre o caso de Geisy.

Para o pesquisador do Instituto de Medicina Comportamental da Unifesp Ricardo Monezi, ao desafiar um padrão de vestimenta, Geisy despertou sentimentos de raiva que serviram de estopim para uma crise moral, que pode ter sido gerada pelo estresse do cotidiano. "A maior parte trabalha o dia todo para conseguir bancar a mensalidade, depende de transporte público e, muitas vezes, mora em bairros afastados, na periferia", avalia.

Essa também é a opinião de Renato Alves, pesquisador do Núcleo de Violência (NEV) da USP. "O contexto brasileiro, infelizmente, não oferece meios saudáveis para que esses jovens possam expressar essa agressividade reprimida. A estudante acabou sendo escolhida como bode expiatório."

De acordo com Alves, o anonimato garantido por movimentos de massa, como o ocorrido na Uniban, faz com que os indivíduos sintam liberdade para fazer o que não fariam em situações normais.

O episódio reflete também, na opinião do especialista, a precarização da educação no País. "Esse tipo de violência sempre foi mais comum entre alunos do ensino fundamental e médio de escolas públicas. Era raro ver casos como esse em universidades. Isso mostra que está faltando formação básica, que ensine o jovem a tolerar e conviver com a diversidade", explica. Para ele, o jovem chega hoje ao ensino superior com uma formação pobre não só em termos de conteúdo como de valores.

BULLYING

Os especialistas veem traços de bullying, prática constante de violência física ou psicológica que intimida e agride um indivíduo, no ocorrido com Geisy. Mas não consideram o fato como um exemplo típico de bullying. "Não acho que o termo se encaixe porque ele se refere a um tipo de assédio frequente e mais discreto, que a vítima não consegue denunciar", afirma Marília Carvalho, professora da Faculdade de Educação da USP. Para a socióloga Miriam Abramovay, o que ocorreu com Geisy ultrapassa o conceito de bullying e mostra uma violência provocada pelo machismo da sociedade.

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