Violência nas ruas revigora oposição

ANÁLISE

Thomas Erdbrink *, O Estadao de S.Paulo

29 Dezembro 2009 | 00h00

Os confrontos entre o regime do Irã e reformistas aumentam as apostas e riscos para ambos os lados, com o governo tentando conter uma oposição revigorada. As batalhas de rua tiveram lugar na Ashura (feriado em memória ao sacrifício do imã Hussein), uma das datas mais sagradas do calendário muçulmano xiita, fato que deve chamar ainda mais atenção para as mortes e desencadear novas demonstrações nos próximos dias.

Numerosas fontes da oposição relatam que, em vários pontos, as forças de segurança abriram fogo contra a multidão. Testemunhas também afirmaram que as dezenas de milhares de manifestantes revidaram com uma força fora do comum, chutando e esmurrando policiais e incendiando prédios e veículos do governo.

Depois de um outono relativamente calmo, os protestos em grande escala do domingo lembraram algumas das mais beligerantes manifestações realizadas entre junho e agosto. Na ocasião, centenas de milhares de iranianos foram às ruas após o governo declarar Mahmoud Ahmadinejad reeleito, a despeito dos graves indícios de fraude.

"Os protestos populares ficaram mais intensos, mais amplos, mais radicais", disse Hamid Reza Jalaiepour, professor de sociologia na Universidade de Teerã. Segundo ele, o governo deve responder com medidas ainda mais duras do que aplicou contra as manifestações passadas. "Tudo, a partir de agora, vai ficar mais duro, mais difícil, mais violento", disse ele. Jalaeipour sugeriu uma alternativa: "A solução correta para o governo é responder às demandas da oposição, não confrontá-las."

Desde junho, a oposição vinha pedindo que os resultados da eleição sejam anulados e uma nova votação seja realizada. Mas o movimento perdeu fôlego em setembro, quando medidas severas adotadas pelo governo impediram que manifestantes voltassem às ruas em grande número.

Os protestos mais recentes começaram no dia 7 e se intensificaram, com manifestações em todas as universidades do Irã. O movimento ampliou-se na semana passada após a morte de Hossein Ali Montazeri, grande aiatolá considerado um dos líderes dissidentes no establishment religioso.

Autoridades qualificaram as manifestações contra o governo como atos inexpressivos e insignificantes por parte de grupos de "agitadores". Os manifestantes, segundo o governo, tinham explorado, deliberadamente, as cerimônias de domingo lembrando a morte do terceiro imã xiita (neto do profeta Maomé), cujo pequeno grupo de partidários empreendeu uma batalha fracassada contra um exército repressivo e poderoso, no século 7.º. As comemorações da Ashura marcaram o luto por Hussein. Elas não só definem o Islã xiita, mas também impulsionam a política no Irã, com seus temas de martírio e sofrimento em nome de uma causa justa. Ambos os lados dessa disputa reclamam o manto de vítima de Hussein.

*Thomas Erdbrink é repórter do jornal "Washington Post"

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