Virginia Woolf nas telas

Quem já teve contato com a prosa - abstrata e porosa - da inglesa Virginia Woolf pode antever as dificuldades que seus livros propõem para adaptações ao cinema. No texto, as imagens estão implícitas nas palavras, mas devem ganhar, digamos assim, materialidade visual ao passar para a tela. Essa transposição, como a das águas dos rios, não se dá sem alguns problemas.

Luiz Zanin Oricchio,

25 de março de 2011 | 17h11

 

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A trajetória de Virginia Woolf

Se nem sempre a operação é simples, o desafio deve valer a pena pois vários dos seus livros foram parar no cinema, como são os casos de Mrs. Dalloway, Rumo ao Farol e, claro, o mais bem-sucedido de todos, Orlando, que na versão brasileira ganhou o subtítulo óbvio de Mulher Imortal.

No filme de Marleen Gorris, Vanessa Redgrave interpreta Mrs. Clarissa Dalloway que, em seu monólogo interior, medita sobre a festa que está preparando, quando tudo é turbado pela aparição de um conviva inesperado, um conhecido muito íntimo de 33 anos atrás. Como se trata de uma meditação, o filme deve se valer de flash-backs e, desse modo, retornar ao tempo em que uma jovem Clarissa (Natasha McElhone) é cortejada por Peter (Alex Cox). Com suas óbvias limitações, o filme tem clima interessante.

Já Rumo ao Farol, de Colin Gregg, feito para a TV britânica, em 1983, passa por adaptação bastante fiel da obra original. Um ainda muito jovem Kenneth Branagh está no elenco.

Compreensivelmente, foi a versão de Orlando a mais bem-sucedida entre as adaptações de Virginia Woolf para as telas. Como romance de natureza mais narrativa, flui melhor na temporalidade linear do cinema. Dirigida por Sally Potter, tem em Tilda Swinton a intérprete ideal para a nobre que não morre jamais e ainda mostra possuir o dom da androginia. Nesse texto um tanto atípico no conjunto de sua obra, Virginia Woolf junta duas aspirações impossíveis do desejo humano - atravessar a barreira do tempo e a cruzar a fronteira entre os sexos. O texto é poderoso. Deu origem ao filme e transformou-se em peça teatral, dirigida, no Brasil, por Bia Lessa.

 Mais recentemente, Virginia Woolf foi nome bastante comentada pelos cinéfilos como personagem de As Horas, de Michael Cunningham.

Cunninghan escreve um livro delicado e o mesmo se pode dizer da versão para o cinema de Stephen Daldry (também diretor de Billy Eliott e O Leitor), realizada em 2002. Em certo sentido, As Horas é um minibiografia de Virginia Woolf, mostrando-a na tensão mental de escrever o romance Mrs. Dalloway e no peso em que a vida se transforma para ela - culminando no suicídio, em 1941.

 Mas o filme é também a história de como um livro, Mrs. Dalloway, que em princípio se chamaria As Horas, pode afetar a vida de três personagens femininos. Em primeiro lugar, o da própria autora, Virginia Woolf. Depois, saltando no tempo, as de Laura Brown (Julianne Moore) e Clarissa Vaughan (Meryl Streep), que têm de lidar com o suicídio em algum momento de suas vidas. O filme deu o Oscar de melhor atriz a Nicole Kidman por sua interpretação da frágil e atormentada Virginia Woolf.

Dos filmes citados, dois foram lançados em DVD no Brasil e podem ser encontrados nas lojas do gênero: Orlando (Platina Filmes) e As Horas (Imagem Filmes). Mrs. Dalloway pode ser encomendado pelo site de compras Amazon.com. 

PROJETO

Michael Cunningham está adaptando a curta novela A Volta do Parafuso, de Henry James, para o cinema. Ele disse ao Estado que é grande fã de James e vai trazer a trama fantasmagórica para o presente. A atriz Anne Hathaway seria a escolhida para viver a assustada governanta da história. A Volta do Parafuso já foi filmado em 1999, na Inglaterra, com Colin Firth no papel de Master, o atormentado patrão da governanta Miss.

A última incursão de Michael Cunningham no cinema foi o roteiro de Evening (2007), escrito a quatro mãos com Susan Minot, autora do romance homônimo. O filme, recheado de estrelas como Vanessa Redagrave e Meryl Streep, e dirigido pelo premiado fotógrafo de cinema Lajos Koltai, foi um fracasso de crítica e público.

Colaborou Lúcia Guimarães, de Nova York

 

Bibliografia

Obras da escritora (e edições mais recentes disponíveis em português)

A Viagem (1915), Novo Século, 2008

Noite e Dia (1919), Novo Século, 2008

O Quarto de Jacob (1922), Novo Século, 2008

Mrs. Dalloway (1925), Nova Fronteira, 2006

O Leitor Comum (1925), Graphia, 2007

Rumo ao Farol (1927)

Orlando - Uma Biografia (1928)

Um Teto Todo  Seu (1929)

As Ondas (1931)

O Leitor Comum (1932), Graphia, 2007

Flush (1933), L&PM, 2002

Os Anos (1937)

Roger Fry (1940)

Entre os Atos (1941), Novo Século, 2008

Contos Completos (1917-1941), Cosac Naify, 2005

A Casa de Carlyle e Outros Esboços, Nova Fronteira, 2004

Cenas Londrinas, José Olympio, 2006

Obras sobre a escritora

As Mulheres de Virginia Woolf, de Vanessa Curtis (Girafa, 2005)

Virginia Woolf em 90 Minutos, de Maria Luiza Borges e Paul Strathern (Zahar, 2009)

Virginia Woolf - Biografias, de Alexandra Lemasson (L&PM, 2011)

Virginia Woolf - A Medida da Vida, de Herbert Marder (Cosac Naify, previsto para outubro de 2011)

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