Vírus da gripe suína é similar ao da espanhola

Vírus da gripe suína é similar ao da espanhola

Estudo traz mecanismo da proteção cruzada das 2 cepas pandêmicas; anticorpo eficaz contra uma delas vence a outra

Alexandre Gonçalves, O Estadao de S.Paulo

25 de março de 2010 | 00h00

Os anticorpos capazes de vencer o vírus da gripe suína também são eficazes contra a influenza espanhola, de 1918. Dois artigos publicados na revista Science desvendam os mecanismos bioquímicos da proteção cruzada contra as cepas pandêmicas.

A descoberta pode inspirar medidas que previnam novas pandemias ou diminuam seu impacto. Também explica porque 33% das pessoas com mais de 60 anos têm resistência ao vírus: elas possuem anticorpos contra a gripe espanhola.

Os cientistas ficaram surpresos com a semelhança entre duas cepas tão distantes. Em geral, depois de poucos anos, a vacina usada contra um subtipo de vírus precisa ser reformulada. O microrganismo sofre mutações que o tornam imune aos anticorpos induzidos pela vacina.

Nos dois vírus pandêmicos, separados por 90 anos de evolução, o principal alvo dos anticorpos permaneceu idêntico: uma região da proteína viral hemaglutinina, responsável pela entrada do invasor nas células (mais informações nesta página).

Nos seres humanos, a seleção natural força o surgimento de cepas mutantes do vírus, mais bem adaptadas para enganar os anticorpos. Essas variantes podem tornar-se cepas da gripe sazonal.

Foi o que aconteceu com o vírus H1N1 da influenza espanhola. Na década de 30, já apareceram as primeiras adaptações que tornariam o H1N1 sazonal irreconhecível quando comparado à forma pandêmica de 1918.

Mas tudo indica que o H1N1 pandêmico permaneceu "arquivado" por décadas nos reservatórios naturais de influenza ? aves e porcos ?, sofrendo poucas mutações. Só no ano passado voltou a infectar humanos.

Os cientistas mostraram que a hemaglutinina do vírus sazonal está coberta por um escudo protetor de açúcar que dificulta a ação dos anticorpos. Para vencer a guerra, o sistema imunológico deve então descobrir outros pontos vulneráveis no microrganismo.

Pode-se supor que o vírus da gripe suína sofrerá um processo idêntico de adaptação. Na realidade, o artigo com a previsão dos cientistas já traz o anúncio do seu cumprimento: no fim do trabalho, há uma nota adicionada depois da conclusão da pesquisa. Ela aponta que já foram identificadas quatro cepas (três na Rússia e uma na China) que possuem hemaglutinina com a proteção de açúcar.

A possibilidade de prever minimamente a evolução do vírus é uma informação útil para auxiliar na decisão de quais cepas devem ser incluídas na vacina do próximo ano. Normalmente, a decisão leva em conta o comportamento do vírus nos períodos anteriores. "É como dirigir um carro olhando no retrovisor", compara Fernando Motta, do Laboratório de Vírus Respiratórios do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz). "Este trabalho acende um pouco a lanterna para intuir o que temos pela frente."

Ao Estado, os coordenadores dos dois trabalhos, Ian Wilson, do Instituto de Pesquisa The Scripps, e Gary Nabel, do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA, disseram que procuram uma vacina universal para todos os tipos de vírus influenza.

Para a chefe do laboratório da Fiocruz, Marilda Siqueira, a pesquisa traz "boas provocações", pois sugere que seria possível diminuir os riscos de uma pandemia imunizando crianças ou criadores de animais com cepas ainda restritas aos reservatórios naturais. "Naturalmente, precisamos agora de mais estudos sobre o tema", aponta Marilda.

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