Vitória expressiva de Dilma no mínimo não deve virar rotina

A vitória expressiva que a presidente Dilma Rousseff conseguiu em torno do salário mínimo, em seu primeiro teste no Congresso, foi fruto de um grande esforço de articulação política do governo. Mas a rara união dos aliados não deve se tornar uma rotina, na avaliação de analistas e parlamentares.

JEFERSON RIBEIRO, REUTERS

17 de fevereiro de 2011 | 19h04

O exemplo mais emblemático dessa vitória foi a unanimidade de apoio do PMDB à proposta do governo para a regra de reajuste do mínimo e seu valor para este ano, de 545 reais. Um assessor de longa data do PMDB disse que não se lembrava qual foi a última vez que a bancada votou totalmente unida em um tema, como ocorreu desta vez.

Mas essa unidade na base aliada foi conquistada com um esforço que não deve se repetir nas próximas votações, consumindo a agenda das últimas semanas dos ministros que dão expediente no Palácio do Planalto.

O vice-presidente da República, Michel Temer, presidente licenciado do PMDB, se envolveu diretamente. Convocou, por exemplo, os deputados que formaram o grupo da "Afirmação Democrática" e que poderiam provocar uma cisão na bancada e pediu que eles não trabalhassem na divisão do partido.

O grupo, composto por 11 parlamentares, luta para apagar a imagem de fisiologismo do PMDB e é contra a disputa por cargos na esfera federal.

O líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), também varou noites convencendo os peemedebistas que estavam descontentes com o tratamento que o partido recebia da presidente Dilma nas indicações do segundo escalão.

"Não foi fácil. Dos 77 deputados, 25 não votaram na Dilma durante as eleições. Mostramos coesão", disse Alves à Reuters após o final da votação.

Dos 372 deputados da base que votaram, apenas 16 apoiaram a emenda do DEM que previa aumento de 560 reais para o mínimo.

SEM VIDA FÁCIL

Para o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília, o PMDB fez um movimento político para se cacifar perante Dilma. "Eles estão dizendo: olha, nós votamos todos juntos com o governo. Agora queremos nossos cargos", avaliou.

Fleischer não acredita, porém, que a vitória do mínimo indique para uma hegemonia de Dilma no Congresso. "Votações futuras terão outros jogadores e outras pressões. Não dá para extrapolar esse resultado", argumentou.

O cientista político Flávio Testa, também da UnB, fez coro: "Acho que não dá para dizer com essa votação que a Dilma tem uma base confortável."

Mesmo parlamentares da base tinham a mesma avaliação. "Não acho que essa situação é perene. Vivemos um momento bom, mas podemos ter mais dificuldades no futuro", disse o ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP), logo após a votação.

Como o esforço realizado pelo governo não deve se repetir a cada votação no Congresso, surpresas podem ocorrer.

Mas isso não melhora os prognósticos da oposição. O presidente do PSDB, deputado Sérgio Guerra (PSDB-PE), também acha difícil a repetição de vitórias esmagadoras do governo, mas não aposta em vitórias contra Dilma. "Aritmeticamente, nós não temos como derrotá-los", constatou.

Os líderes governistas ouvidos pela Reuters preferiram comemorar o resultado da quarta-feira, sem se ater muito às próximas votações.

"A oposição não conseguiu nem unir todos os votos que tem", lembrou o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza

(PT-SP).

Dilma classificou a votação como demonstração de força política e coesão da base, segundo relato do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB).

SEQUELAS

A operação do governo também deixou algumas sequelas. No PDT, a discussão sobre o mínimo produziu fortes debates e mesmo assim foi a bancada da base que mais votou contra o governo. Nove dos 26 deputados pedetistas votaram pelo mínimo de 560 reais propostos pelo DEM e um se absteve.

O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, cobrado por Dilma pela posição favorável da bancada, negou a pressão do governo, mas disse que o noticiário contra ele mostraria que tem gente de olho no seu cargo.

"Eu fiquei duas horas reunido com a presidente. Somente eu e ela. Não houve pressão. Quem fala isso é porque está descontente com meu trabalho ou quer tomar o meu lugar", disse à Reuters nesta quinta-feira.

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