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Luiz Horta
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Vive la difference!

Cassandras de além-mar não cansam de agourar a morte do vinho francês. Mas a complexidade dos terroirs segue vivíssima

Luiz Horta,

16 de setembro de 2010 | 08h25

 

A França está morta, o vinho francês em decadência, tendendo à uniformização e padronização impostas pelo mundo global. Assim gritaram alegres, fazendo cara de tristes, os que sempre gostam de anunciar o fim do mundo para a semana que vem, desenganando o país vinícola mais famoso do mundo, que não teria sobrevida no século 21. Jonathan Nossiter, sempre ele, cavalgando seu pônei do apocalipse, tratou de produzir um livro para dizer duas coisas: a primeira, que os vinhos naturais seriam os únicos que poderiam salvar a França da morte anunciada. A segunda, consequência da primeira, é que tinham de ser os vinhos naturais de produtores dos quais ele, Nossiter, gosta. Bem pequena a chance para os franceses, neste caso. Também americana, a ruivinha nervosa Alice Feiring, armando-se de Joanna d'Arc nova-iorquina, fez coro.

Sua música era a mesma: ou os vinhos franceses se tornam naturais, de produtores que ela aprecia, ou estarão irremediavelmente condenados. O grande inimigo, a nêmesis da França, na opinião de ambos, era Robert Parker, que iria fazer sumir as nuances regionais dos vinhos, transformando-os, com seu gosto abominável, num suco de madeira e álcool. E a França? Fez aquele buf típico, deu de ombros a essa briga de americanos por poder e continuou a produzir o que sabe: excelentes vinhos com tipicidade. Não sumiu o Vin Jaune do Jura nem definharam as videiras de Manseng, no Irouléguy; menos ainda desapareceu a complexidade dos terroirs de cada canto do país. Ao contrário, apareceram com mais força lugares esquecidos no cenário.

Já que russos e chineses garantiram a compra por preços impagáveis dos vinhos de Bordeaux, ao citoyen restou o de sempre: confiar no seu caviste de bairro, comprar os achados dele, que vão de sul a sudoeste, e experimentar novidades de preço modesto nos novos bars à vin estilo Verre Volé, surgidos nos últimos anos, onde a carta de vinhos em taça é maior que a de comida. Na verdade, é uma lousa cheia de nomes que escondem garrafas muitas vezes com rótulos escritos à mão, frutados, jovens, deliciosos. Isso reavivou o vinho regional e reativou denominações perdidas no tempo. Nunca antes, na história dessa bebida, a variedade foi tão grande. Atualmente é possível beber bons vinhos franceses em Paris ou no Brasil sem precisar recorrer aos grandes nomes - produtos da Córsega, do Jura, do Rhône, de Savoie. Até mesmo o desacreditado Beaujolais foi salvo, reaparecendo na mão de produtores sérios de bons Gamays sob o confiável nome do cru Morgon. Talvez o patrimônio de castas de Portugal vença o francês; talvez o Malbec argentino tenha ganhado para sempre os corações e mentes dos americanos contra os originais de Cahors; mas como dizia Humphrey Bogart na cena famosa de Casablanca, "sempre teremos Paris". A diversidade de uvas, estilos e vinhos da França continua imbatível como conjunto. Nem todo vinho francês é bom, mas o melhor time deles está lá.

 

Se quiser provar

Alguns vinhos diferentes da dobradinha Bordeaux-Borgonha, e fora da tríade Cabernet-Merlot-Pinot:

Os maravilhosos Tannats do Madiran, de Alain Brumont - Château Bouscassé, Château Montus (Decanter, tel. 47 3326-0111)

O Morgon Lapierre (World Wine, tel. 3383-7477) A Chenin perfeita de Savennières do Dom. Baumard (Mistral, tel. 3372- 3400)

O Cahors profundo do Château Lamartine (Mistral)

A Carignan com status de Pinot Noir de uma quebrada do Languedoc do Domaine Rimbert (De la Croix, tel. 3034-6214)

A pouco conhecida uva Vermentinu do Domaine Orenga (Empório Sório, tel. 2925-2601)

A Savagnin do Domaine Baud (Le Tire-Bouchon, tel. 3822-0515)

 

 

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Ilustração:Carlinhos Müller/AE

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