Você é jovem, velho ou o quê?

Quando criança, reunida a turma na calçada, decifrávamos as adivinhas. A mais fácil era: O que cai de pé e corre deitado? Chuva. Outra, a favorita de meu avô: O que é uma caixinha de bom parecer, que nenhum carpinteiro pode fazer? A resposta era amendoim, porém meu avô corrigia. Carpinteiro é quem faz forros e telhados, lida com coisas pesadas, vigas, caibros. Marceneiro é um artista, envolve a delicadeza, faz móveis, armários, objetos. Ele sabia, foi marceneiro. As adivinhas faziam parte daquele mundo infantil em que não havia a infinidade de brinquedos que existe hoje. Presentes eram no aniversário e no Natal, nada mais. Não existiam os "dias especiais", o comércio estava "atrasado". De qualquer modo, brincávamos, éramos crianças, não os pequenos adultos de hoje, sobrecarregados de cursos e problemas e exigências e ausência de limites.

, O Estadao de S.Paulo

18 Dezembro 2009 | 00h00

Ganhei O Pequeno Construtor, aquela caixa com bloquinhos de madeira (hoje dou Lego aos meus netos, e também me delicio), ainda que isso não tenha feito de mim um arquiteto. A gente montava uma estrutura complicada, os grandões vinham e derrubavam. Assim como se derrubavam castelos de cartas e de areias. Crianças não são a própria inocência...?

As adivinhas eram uma maneira de vencer o tédio de noites vazias. Entre o Natal e o ano-novo, corríamos às farmácias, queríamos os almanaques do Biotônico Fontoura, A Saúde da Mulher, Capivarol, Regulador Xavier, que traziam cruzadas, adivinhas, piadas, caricaturas, contos. Por anos sonhei montar um almanaque. Fui estruturando o meu, até que ele se formatou com uma série de adivinhas diferenciadas. Por meio delas pode ser que você se descubra jovem ou velho ou muito velho. Não se impressione, é pura diversão. Verá como cada época foi bem marcada por anúncios, gírias, frases, usos e costumes, superstições.

E como o mundo mudou. Lembram-se dos tabus alimentares? Não misturar leite com banana. Manga com banana, então, era veneno. Até que chegou o liquidificador e ousaram fazer vitaminas. No interior dizíamos vitaminados. Melancia com pinga? Cortava o sangue. Melancia à noite? Dava nó na tripa. Fazer a barba depois do almoço olhando no espelho? Entortava a boca. Tomar café olhando para o sol deixava a pessoa vesga. Cadernos e cadernos de anotações, cartas de amigos, e-mails, assim montei o livro Você É Jovem, Velho ou Dinossauro?, meu almanaque. Que me divertiu e tem divertido leitores. Dia desses, no programa de Ronnie Von, foi uma batalha verbal. A primeira pergunta que fiz a ele e está no livro: Para que lado Ronnie Von jogava os cabelos quando cantava Meu Bem? Ele pensou um minuto antes de jogar a cabeça para a direita e responder.

Pensei nesse livro no sábado passado quando li que Gene Barry, o Bat Masterson, morreu aos 90 anos. Uma das perguntas do livro é: lembram-se da canção do seriado que foi um sucesso na televisão? No velho Oeste ele nasceu, e entre bravos se criou? Identificava-se imediatamente Bat Masterson, o herói do Oeste almofadinha, como se dizia, mas bom de briga. Para as mulheres há questões que remetem a tempos diversos: Usava Antisardinna? Usava Rugol? E Pond"s? Talco Lady? Perfume Coty? E o Dipitidu? Você e suas irmãs usavam bobe na cabeça? Fizeram permanente com aqueles líquidos que fediam? Ou são mais modernas, são do tempo do perfume Patchouli?

Atrás da simplicidade está o retrato de períodos. Para a tosse, bronquite e catarro dos bebês, suas mães usavam o Melpoejo? Conheceu o Purgoleite? E passava Cera Doutor Lustosa para as dores de dentes? Lembra-se do cheiro ardido dela? Caminhemos para os anos 70. Colecionou os fascículos da Bíblia? E da Gula? E os Gênios da Pintura? Comprou a Enciclopédia Barsa? O rato Sig foi símbolo de qual publicação? Você é do tempo das fotonovelas? E do teletipo? Achou que o mundo era uma maravilha quando comprou o primeiro fax? Tinha um tijolão de quase um quilo, que eram os primeiros celulares? Tem ideia do que é papel carbono? E jetom?

No carnaval jogava confete na boca das moças para que elas sufocassem? Usava lança perfume nos seios delas? Ou nas coxas? Fez uma fantasia de odalisca? Ficava curioso para saber qual seria a fantasia do Clovis Bornay no carnaval? Ou não tem a mínima ideia de quem foi o Clovis Bornay? Lembra-se da orquestra Tabajara? Não confundir com as Organizações Tabajara do Casseta & Planeta. Organizava festinhas tipo Traga o seu LP? Você dizia amasso ou bolinar, ou encoxar? Sabe que tudo isso significava, mais ou menos, ficar? Comprava camisinha escondido na farmácia? Teve um K7? Qual livro todas as misses liam e citavam? Esta eu conto: O Pequeno Príncipe. Tem ideia do que foi o Madame Satã? Você foi um clubber? Sabe o que é hypado? (essas são moderninhas).

Todas essas informações de tempos desencontrados reuni neste livro que desde sua publicação, há um mês, faz chover em minha casa e no jornal e-mails e mais e-mails trazendo as memórias espontâneas de leitores. Hoje mesmo chegou uma raridade enviada pelo Milton Ferraioli. Um comercial natalino que o Pelé fez para a Francisco Xavier Imóveis. Chega uma caixa enorme, decorada, curioso, feliz, Pelé abre e uma loirona salta nos seus braços. Eta Pelé bão! E o Tarcisio Meira fazendo anúncio para a Ducal, revelando a "espantosa" novidade, ternos com duas calças? Termino com um teste. Como se fazia para saber se um homem era homem mesmo? Homem não comia salada, não tomava vinho branco, não bebia com o dedinho para cima, não usava calça justa nem camisa colorida, amarela ou vermelha. Essa foi o Mario Prata que me mandou. Eta Pratinha, exilado em Florianópolis!

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