André Oliveira
André Oliveira

Você sabe com quem está jogando?

Artista do pano verde, piranha do joguinho, professor de habilidades-aos 84, Carne Frita ainda ostenta o título de maior jogador de sinuca que o Brasil já viu

André de Oliveira,

01 Junho 2013 | 16h48

Sentando na mesa de fórmica branca, não chama atenção. Todo mundo sabe quem ele é, sua presença é tida como corriqueira. Há mais de dez anos frequenta o Big House, salão de sinuca na Água Rasa, zona leste de São Paulo. Está animado. Coisa rara, segundo se diz por aí. Conta uma história para um colega de cabelos brancos e olhos esbugalhados, que parece não prestar muita atenção na conversa. Uns garotões de 20 e poucos anos vão cumprimentá-lo com deferência especial, mas não se alongam. Vão logo atrás das taqueiras e já dão início a uma partida. Um outro, de saída, passa pela mesa: "Frita, o sanduíche tá pago".

Esse é Walfrido Rodrigues dos Santos, o Carne Frita, o taco mais forte que o Brasil já viu. Um artista do pano verde, piranha do joguinho, verdadeiro professor de habilidades. Quase não há brasileiro que, com mais de 50 anos, não tenha ouvido esse nome. Na boca dos frequentadores dos salões de sinuca onde se jogava apostado seu nome virou gíria. Quando um parceirinho – o oponente de jogo – estava inspirado, encaçapando todas, não tardava para alguém bulir: "Que é isso, parceirinho, está matando mais que o Frita hoje!".

Só que o seu nome foi além, transcendeu a malandragem. Foi parar na boca da classe média e também dos mais endinheirados, que requisitavam sua presença em suas casas, nos salões chiques e em clubes. Fez apresentações para famílias quatrocentonas, como os Suplicys, ou para figuras mais sinistras da política, como Tenório Cavalcanti, o Homem da Capa Preta.

Hoje, aos 84 anos, causa espécie em Frita ouvir o nome de Rui Chapéu, jogador que na década de 1980 apresentava um programa de sinuca na Band. É que, como se diz à boca pequena nos salões que restaram em São Paulo, Chapéu só ganhou fama por causa da TV. Não que não fosse taco forte, era e muito. Mas, descontada a diferença de idade de 25 anos para menos, nunca teria sido páreo para Frita. Deste, fala-se o seguinte: "Na sinuca existem dois tempos. A era pré e a pós-Carne Frita". Sua fama percorreu o Brasil no boca a boca. Há quem diga que foi Pelé, outros que foi Garrincha. Por isso a mágoa quando ouve o nome de Chapéu.

Em 1963, exatos 50 anos atrás, Malagueta, Perus e Bacanaço – três malandros ficcionais do livro homônimo de João Antônio – toparam na esquina da Santa Efigênia com um baixinho de olhos de menino. "Ninguém daria nada àquele. Fossem ver... Perguntassem em Goiás, em Curitiba, em Porto Alegre, no Rio, em Fortaleza... Sua história abobalhava, seu jogo desnorteou todos os mestres", escreveu João Antônio no conto que lhe renderia lugar entre os maiores. Entre 1950 e 1960, também apareceu mais de 20 vezes no Jornal do Brasil; participou de programas de TV, como o Noite de Gala, da Tupi; e foi lembrado em outros clássicos da literatura, como Agosto, de Rubem Fonseca.

Agora, quase diariamente, ele sobe os 20 degraus do Big House, se senta na mesa redonda de fórmica e deixa as horas passarem. Não bebe, não fuma. Às vezes conversa animadamente. Às vezes cochila. Sempre assiste à televisão. Sempre pragueja, seja de um jogo que lhe roubaram, de alguém que o passou para trás ou, principalmente, do murro de soco-inglês que levou em 1974 e que, jura, acabou com sua vida. A partir daquela pancada na frente do finado edifício São Vito, seu jogo nunca mais seria o mesmo. Teve de colocar enxertos de silicone no rosto e se queixa da vista e das dores até hoje. O motivo da briga é meio obscuro. Numa das versões, Frita estaria botando cornos num polícia. Ele desconversa, mas depois que eu insisti um tanto, disse assim: "É, eu estava emprestando a geladeira pra mulher do cara".

Frita tem uma memória impressionante. Lembra o número de telefone dos salões em que jogava e a colocação das bolas em determinadas partidas que aconteceram há mais de 40 anos. Mas também é extremamente repetitivo. E talvez por isso, naquela noite em que parecia de bom humor, seu interlocutor não lhe desse muita trela. Desviando a atenção para mim e percebendo minha curiosidade, Frita se interessou. Puxei papo e ele passou a falar ininterruptamente sobre seu único assunto: sinuca. Até que, de uma hora pra outra, como se lembrasse de um jogo do fim de semana, passou a escalar o Corinthians de 1950: Cláudio, Luizinho, Baltazar. Animado, foi pegar o taco e me chamou para ver, queria marchetar um símbolo do Timão na base dele.

Os olhos meio embaçados correm a mesa. Com um pouco mais de 1,60, a tez amarronzada, a careca achatada, um pequeno afundamento entre as sobrancelhas, o cabelo das laterais branco, ele leva uma mão à caçapa. Tira as bolas, as arranja meio ao acaso, acaricia o pano verde, enlaça com os dedos a ponta do taco – que vai seguro na altura da cintura. Não se agacha, desafiando a posição tida como certa para o jogo. Ereto, olha a mesa de cima e, assim, aparenta ter 30 anos a menos. Dá a primeira tacada. Erra. A segunda. Erra. Faz uma pausa. Reclama que na época em que tomou o soco estava "numa forma danada, que só faltava fazer chover". Coça a testa, indicando onde levou a pancada. Se concentra. Tenta uma tacada impensável para um leigo. A branca bate na vermelha. Ela corre a extensão toda da mesa, na diagonal oposta da que foi. Vem devagar, chorando, calculada. Cai na caçapa. O gênio aparece. "Você gostou, né, filhinho?"

Sergipano, nasceu em Propriá, à beira do São Francisco. Aos 10 anos, atravessou o rio com a família e mudou para Penedo, em Alagoas. Um dia, jogando futebol na várzea, conheceu o palhaço Biriba, de passagem pela cidade. A molecada juntou em volta dele, que foi perguntando o nome de cada um. Frita respondeu "Walfrido". Brincando, o palhaço respondeu: "O quê? Carne Frita?". Estouro de risadas. O apelido pegou.

Aos 12 anos jogava bolinha de gude a dinheiro. Sempre a dinheiro. Uma espécie de treino do que estava por vir. Era um galinho de briga, sem medo, atirado. Aos 15, Cícero, irmão mais velho, o arrastava pela orelha para fora do salão. É que o dono do lugar caçoava, dizendo que Frita jogava mais do que ele. Aos 17, tendo vencido todos os tacos fortes de Penedo, fugiu de casa. Sonhava com jogos mais caros no Rio de Janeiro. Depois da fuga, nunca mais veria Cícero, e encontraria sua mãe apenas uma vez. Hoje, separado, tem três filhos, mas com tristeza diz quase não ver a família.

Em Salvador, conheceu Félix, que prometeu colocar cifras em seu bolso. Esse seria seu patrão – como se chama o apostador, espécie de empresário. Sem jogo na capital baiana, desceram para Ilhéus. No salão, a corriola se animou. Frita foi Frita. Enfrentou todos, ganhou de todos. Mas na vez de K11, o taco mais forte da região, o patrão pediu para ele entregar. Que comesse quieto, que dissimulasse, para poder continuar participando das apostas. Se vencesse aquele, não teria mais vida fácil na cidade. A contragosto, Frita perdeu. Foi das últimas vezes que fez isso. Deu um aceno de mão a Félix, continuou a viagem e, no caminho, foi se fazendo conhecer.

Ao chegar ao Rio, em 1951, deu logo no Indígena, salão em um sobrado na frente da Igreja Mem de Sá, na Lapa. "Peguei todos os tacos fortes do Rio. Lincoln, Pinguim, Detefon, e quebrei todos. Modéstia à parte, filhinho, eu jogava muito. Parecia cinema. Estava numa forma danada, mas o soco me tirou a visão. Eu não merecia aquilo." A Lapa era uma loucura e Frita se lembra do dia em que pisou lá pela primeira vez. "Me disseram que a Lapa estava pacificada, mas quando eu cheguei já vi um loque descendo do bonde com a arma na mão."

Em 1958, quando se mudou para São Paulo em busca de jogos mais caros, seu estilo tinha ficado famoso. Nunca foi um matador, um atirador. O negócio de Frita não era encaçapar uma atrás da outra. Sua arte era a defesa, trancar um jogo de tal modo que o parceirinho não pudesse se movimentar.

Já nos anos 1960 penava para conseguir um adversário. Vez ou outra enfrentava outros cobras, como Praça, Boca Murcha, Jesus Cristo. Quase sempre tinha que dar partidos altíssimos, uma vantagem na pontuação para o jogador mais fraco. Por isso saía pelo Brasil em busca de onde não conhecessem seu rosto. Tarefa difícil. Em uma viagem pela Rio-Bahia, rumo a Salvador, parou em várias cidades pequenas. Mas em algum momento teve um lá que dedou: "Você sabe com quem está jogando? Esse é o Carne Frita". Pronto. Salão vazio.

Isso não impediu que ganhasse muito dinheiro. Como Frita não perdia – uma das lendas que corre é que ficou 16 anos invicto –, o dinheiro entrava. Amealhou suficientemente para, se não se estabilizar, fazer um pé de meia. Mas, pródigo, gastou tudo. Em um dos poucos salões paulistanos em que ainda se joga apostado, um taco diz ter conhecido Frita: "Perdeu tudo porque não teve humildade. Se ia para o Rio, ficava na suíte presidencial do Copacabana Palace e, além de tudo, fazia a viagem de táxi". Frita não confirma, mas, sentado na mesa do Big House, fala em dinheiro repetindo a frase "quando penso na minha vida..."

A escadaria estreita que leva ao salão – um sobrado em cima de um amplo comércio de móveis – é revestida de um carpete verde de aspecto seboso, que também cobre todo o chão. Ali se veem um bar; seis mesas verdes grandes e uma pequena, iluminadas por luz branca; uma taqueira fechada à chave, onde os assíduos guardam seus tacos; duas mesas de fórmica para jogos de carta; uma janela de parede inteira que dá para a paisagem cinza da Av. Salim Farah Maluf; o som ambiente sintonizado em uma rádio de música pop; a televisão de LCD ligada no último; um pôster do filme Garotos e Garotas, com Frank Sinatra e Marlon Brando; e, por fim, um quadro com uma foto de Frita, acompanhada de um textinho que conta quem ele é. Isso é o Big House, que em pouco lembra os salões que existiam no centro de São Paulo.

A santíssima trindade era constituída por Bilhar do Papai, na Rua Aurora, Maravilhoso, na Ipiranga, e Bandeirante, na Praça João Mendes. Não eram elegantes como o salão do Edifício Martinelli, com espelhos e lustres de cristal. Mas algo vibrava neles. Para entrar no Maravilhoso – onde certa vez Frita se bateu com Lincoln, um de seus principais adversários, durante 12 horas seguidas – tinha que se passar por uma fileira de engraxates e por um salão de barbeiro e manicure para, só então, chegar às mesas, onde a fumaça de cigarro era constante.

Nesse ponto de encontro de velhacos, estudantes, intelectuais, pés-rapados e endinheirados, é possível ler a vida de Frita. Ele só podia existir naquelas circunstâncias. Era um malandro honesto, talvez o último de sua estirpe. Não entrava em mutreta, não aplicava golpes, não baratinava. Queria jogar, porque era o melhor e porque só nisso encontrava prazer. Hoje vive de uma aposentadoria do Fórum de São Paulo, onde trabalhou como contínuo, e de suas centenas de memórias. Costuma-se falar que muito malandro já deu a volta ao mundo andando ao redor das mesas de sinuca. Carne Frita, se não deu a volta ao mundo, deu a volta no Brasil.

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