Abedin Taherkenareh/EFE
Abedin Taherkenareh/EFE

Volta, Mahmoud

Não ria: com o presidente Ahmadinejad fora do governo do Irã, não sobra ninguém com cacife para encarar os aiatolás

Reza Aslan,

15 de junho de 2013 | 16h07

Como é mesmo aquele ditado - só damos valor a uma coisa depois que a perdemos? Bem, após oito longos anos de Mahmoud Ahmadinejad na presidência do Irã, aposto que mesmo aqueles de nós que abominam o homem vão acabar sentindo sua falta - não só pela comédia que ele proporcionava com sua retórica belicosa e seu populismo vazio, mas porque pode ter sido a última e melhor esperança de privar o regime clerical de seu direito "divino" de governar o Irã.

Em 2011, argumentei que os que se opõem ao regime clerical no Irã, anseiam por uma nação mais secular e buscam inspiração nas glórias do passado persa do país - e não em seu presente islâmico - podem ter um defensor inesperado ao seu lado: Mahmoud Ahmadinejad.

Não estava sugerindo que Ahmadinejad fosse algum ícone da democracia, nem um bom sujeito, para não dizer um presidente competente - embora ele seja mais sofisticado politicamente do que seus críticos supõem. É uma falácia ocidental que "mais secular" signifique necessariamente "mais livre". Mas resta o fato de que nenhum presidente da República Islâmica desafiou tão abertamente a hierarquia religiosa governante e tentou tão ousadamente canalizar os poderes de tomada de decisões do governo para fora dos organismos clericais não eleitos que controlam o Irã.

Com Ahmadinejad, a presidência se tornou uma base de poder legítima como jamais havia sido. Isso pode explicar por que o líder supremo do país, Ali Khamenei, andou ameaçando recentemente extinguir o cargo.

Na época, recebi muitas críticas da comunidade iraniano-americana. Meus críticos não fizeram objeção ao conteúdo; eles simplesmente odiaram que eu tivesse dito alguma coisa remotamente positiva sobre um homem que havia se tornado um paradigma de tudo que havia de odioso no regime iraniano. Também fui censurado por alguns jornalistas americanos que parecem incapazes de ver Ahmadinejad por qualquer outra ótica que não a de suas visões absurdas e odiosas sobre Israel.

Hoje, seu desafio sem precedente aos poderes ilimitados do líder supremo é algo que mesmo os que não o suportam reconhecem e, a contragosto, admiram. E agora que ele está prestes a ser substituído por alguém de uma claque de admiradores servis do aiatolá Khamenei, podemos começar a pensar um pouco mais generosamente nestes últimos anos.

O conflito dos mulás com Ahmadinejad vai ao cerne do que constitui a legitimidade política da República Islâmica. No governo bizantino do Irã, o presidente eleito deve representar a soberania do povo, enquanto o líder supremo, não eleito, representa a soberania de Deus. Mas, na prática, quase todas as alavancas do poder político estão nas mãos do líder supremo, deixando o presidente com pouquíssimo controle das decisões. Era assim que o fundador da República Islâmica, aiatolá Ruhollah Khomeini, queria. O conceito político-religioso de velayat-e faqih, ou "tutela do jurista", estabelecia que, na ausência do messias muçulmano (o Mahdi), os poderes do governo deveriam ficar com os representantes do messias na Terra - isto é, os aiatolás. Após criar o cargo de líder supremo, Khomeini se autonomeou para ele e começou a acumular uma autoridade religiosa, econômica e política absoluta, aplainando o caminho para o controle clerical completo.

Esse controle se estendeu até os ramos eleitos do governo. O clero constituiu mais da metade dos representantes dos dois primeiros Parlamentos do Irã, embora esse número tenha diminuído gradualmente para menos de um quarto hoje. Com exceção do primeiro e do segundo presidentes da República Islâmica - que ocuparam o cargo por um total de menos de dois anos antes de ser, respectivamente, impedido e assassinado - todo presidente eleito no Irã pós-revolucionário antes de 2005 era clérigo.

Ahmadinejad quebrou esse precedente quando derrotou Ali Akbar Rafsanjani, pintando-o como um mulá rico, corrupto e alienado, sem o menor apreço pelos problemas das pessoas comuns. Em contraste com Rafsanjani, cujos discursos eram recheados de palavras árabes e citações corânicas, Ahmadinejad se vestia com simplicidade, falava o persa coloquial e adotava uma religiosidade provinciana deliberadamente despojada de ensinamentos clericais.

A estratégia foi tão bem-sucedida que ele conquistou 62% dos votos no segundo turno contra Rafsanjani. Não abandonou sua controversa persona pública após assumir o cargo - muito antes de sua reeleição fraudulenta em 2009, ele havia começado a se distanciar da elite clerical e consolidar o poder da presidência. Ironicamente, foi depois de a sublevação do Movimento Verde ser violentamente reprimida e sua reeleição defendida com firmeza por Khamenei que a agenda anticlerical se tornou mais pronunciada.

No segundo mandato, Ahmadinejad reduziu gradualmente o controle religioso, econômico e político do clero. Primeiro, começou a questionar o status autoproclamado dos mulás como árbitros da moralidade islâmica - e, em especial, sua obsessão por indumentárias islâmicas apropriadas. Condenou as ações da temida polícia da moralidade do país dizendo: "É um insulto perguntar a um homem e uma mulher que estão andando na rua sobre suas relações interpessoais". O consultor de mídia de Ahmadinejad, Ali Akbar Javanfekr, chegou a ser preso por publicar artigos criticando a lei que obrigava mulheres a usar véu.

Depois, o presidente começou a criticar o clero por sua imensa riqueza, um flagrante contraste com o sofrimento econômico dos iranianos em razão das sanções internacionais. Numa medida surpreendente, reduziu o dinheiro que o governo repassava às instituições religiosas, que nas três últimas décadas se tornara uma tremenda fonte de enriquecimento pessoal para muitos da elite clerical.

Também deu passos ousados para disputar o poder político com os mulás. Deixou de comparecer às reuniões do Conselho de Conveniência, um dos muitos comitês orwellianos do Irã, cujo propósito é proteger os interesses políticos do clero. Quando o ministro do Petróleo renunciou, assumiu pessoalmente o ministério até um substituto permanente ser encontrado, estabelecendo um precedente presidencial extremamente significativo.

Mesmo quando suas tentativas de consolidar o poder foram frustradas por Khamenei e seus aliados, Ahmadinejad mostrou destemida disposição de não se curvar aos caprichos do líder supremo. Quando Khamenei indeferiu a demissão de seu chefe de inteligência, Heider Moslehi, Ahmadinejad fez "greve" recusando-se a participar de reuniões em protesto. Tendo Khamenei rejeitado a nomeação de um aliado próximo do presidente, Esfandiar Rahim Mashaei, para vice-presidente, Ahmadinejad o nomeou chefe de gabinete - um cargo provavelmente mais influente, que não requeria a aprovação de Khamenei. O líder supremo fez objeção ao hábito de Ahmadinejad de nomear "enviados especiais" - uma tentativa de driblar o Ministério das Relações Exteriores, que está sob o controle de Khamenei; Ahmadinejad simplesmente os renomeou como "consultores" e foi em frente.

Mas o desafio ao regime clerical por Ahmadinejad foi além de uma simples escaramuça com o líder supremo. Talvez seja mais importante seu questionamento público dos fundamentos da autoridade política e religiosa da República Islâmica. "A administração do país não deve ser deixada ao líder (supremo), aos pensadores religiosos e outros (clérigos)", disse ele em 2011. Esfandiar Mashaei, seu chefe de gabinete, foi mais longe, argumentando curto e grosso que um governo islâmico não é capaz de gerir um país vasto e populoso como o Irã. São declarações espantosas para o presidente e seu assessor mais próximo. Aliás, são totalmente sediciosas - seria como o presidente dos EUA questionar a viabilidade da democracia constitucional. Ninguém no governo iraniano, nem os reformistas mais liberais no Parlamento, havia ousado desafiar abertamente o direito divino do líder supremo de governar, Para Ahmadinejad, porém, ataques diretos ao velayat-e faqih se tornaram parte habitual de sua retórica.

Considerem-se, por exemplo, as criticadas declarações de Ahmadinejad de estar em comunicação direta com o Mahdi. Tais afirmações não são delírios de um fanático religioso. São um repúdio público ao sistema inteiro sobre o qual a República Islâmica foi erigida. Afinal, se um leigo como Ahmadinejad pode se consultar diretamente com o Mahdi, para que servem os aiatolás? E se os clérigos não são os únicos com linha direta com o messias, por que receberam do Mahdi poderes políticos acima do governo? Como disse Mashaei, "governar um país é como disputar uma corrida de cavalo, mas o problema é que (os clérigos) não são jóqueis".

Khamenei imediatamente captou o desafio que as declarações de Ahmadinejad representavam para o regime religioso, emitindo uma fatwa reafirmando que ele, só ele, representa o Mahdi. Apesar da reação do clero, Ahmadinejad continuou a usar as prerrogativas de presidente para empurrar um novo ethos de "nacionalismo persa" sobre a identidade islâmica do Irã. Defendeu um "Islã iraniano" que contrasta com a ideologia teocrática promovida pelo regime clerical, ao qual alguns iranianos se referem zombeteiramente como "arabismo".

Ahmadinejad também quebrou um tabu ao cumular de elogios Ciro, o Grande, o primeiro e maior rei do antigo Império Persa. Essa nostalgia pelo passado pré-islâmico provocou advertências estritas de aliados de Khamenei. Um parlamentar conservador chegou a dizer que o presidente "devia estar consciente de que é obrigado a promover o Islã e não o Irã antigo, e se ele não cumprir sua obrigação, perderá o apoio da nação muçulmana do Irã". Entretanto, o nacionalismo persa de Ahmadinejad se mostrou extremamente popular no país. Chegou a originar um novo movimento político, que os defensores mais fanáticos do regime clerical condenam como "movimento depravado" e "terceiro pilar da sedição". Ahmadinejad, por sua vez, repudiou os críticos como o tipo de gente que "corre para Qom (a capital religiosa do Irã) para buscar instruções".

Com essa descrição, Ahmadinejad poderia estar falando de qualquer candidato presidencial do Irã. Afinal, a única coisa que os principais concorrentes têm em comum é sua cômica obediência ao líder supremo. O negociador nuclear Saeed Jalili afirmou que "os que têm a menor discordância do líder supremo não têm lugar em nosso discurso" e "toda nossa atenção deve ser dedicada ao que nosso líder deseja".

Essa profissão de obediência incondicional parece ser a única maneira de assegurar a presidência nesta eleição. Ali Akbar Velayati, outro concorrente, disse que sua maior força como presidente seria a disposição de cumprir incondicionalmente tudo que o líder supremo lhe disser para fazer: "E vejo isso como um ponto forte ... Acredito que existir uma pessoa que tem a última palavra e toma a decisão final seja do interesse político do país".

Mohammad Bagher Qalibaf, o bestial prefeito de Teerã, bravateou sobre defender o direito do líder supremo de governar batendo pessoalmente nas cabeças de estudantes que o questionavam numa manifestação. "Quando é necessário ir à rua e agredir (manifestantes) com cassetetes, estou lá e me orgulho disso", disse.

De fato, nenhum dos candidatos presidenciais presentes, nem mesmo o moderado Hassan Rouhani, que apesar de suas duras críticas aos "excessos" do regime clerical é ele mesmo um mulá, parece muito ansioso para carregar o manto de anticlericalismo de Ahmadinejad para o governo.

A menos que haja alguma grande surpresa, que Khamenei fez tudo que tinha ao alcance para impedir, um dos três sicofantas acima listados será provavelmente o novo presidente do Irã. Isso marcará também o fim do desafio sem precedente de Ahmadinejad à filosofia balizadora da República Islâmica. À medida que o controle clerical sobre o governo iraniano se tornar mais severo, os que culpam os mulás por tudo que há de errado no Irã poderão um dia sentir falta do homenzinho de barba mal cuidada e paletó amarrotado que ousou desafiar o representante do Mahdi na Terra. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*REZA ASIAN É BOLSISTA SÊNIOR DO COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS E AUTOR DE ZEALOT: THE LIFE AND TIMES OF JESUS DE NAZARETH. ESCREVEU ESTE TEXTO PARA A FOREIGN POLICY

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