Voltar ao Japão? Nem a passeio

Yoshito Hirata, 100 anos, chegou ao Brasil aos 10, e nunca pensou em voltar

Márcia Placa,

24 de maio de 2008 | 18h50

Yoshito Hirata conta que não pensava em viver tanto, a ponto de chegar aos 100 anos. Uma vez passada a fronteira do centenário, no entanto, acabou tendo uma premonição. "Sonhei que completaria 111 anos", revela o imigrante. "E agora espero chegar lá." Veja também:Para celebrar o Centenário da Imigração Japonesa Força e leveza em forma de poesia Uma apaixonante vontade de viver Em um lugar longínquo, a chance de ser feliz No Brasil, para fazer a vida e fugir da guerra  Especial: Álbum da imigração Especial: A viagem inaugural  Ele desembarcou no Brasil aos 10 anos, deixando para trás sua terra natal, Kyushu, na província de Fukuoka. Órfão de pai e mãe, veio com tios, primos e um irmão, mas boa parte da família já estava aqui. Nesses 90 anos de Brasil, diz que nunca teve vontade de voltar ao Japão. "Não fui nem a passeio", diz Yoshito, que fala bem o português.Introspectivo, mas com a memória bastante ágil, conta que trabalhou na lavoura em diversas cidades do Interior de São Paulo - Marília, Presidente Prudente e Mogi das Cruzes. Primeiro, com café e, depois, a pedido de um primo, no plantio de algodão, ao qual se dedicou por 30 anos. Na roça, Yoshito mantinha diversas culturas, como hortelã e batata. Criou galinhas e carneiros. "Apesar das dificuldades financeiras, nunca faltou comida para a gente", afirma Rosa Hirata, a segunda filha, hoje com 67 anos. "Meu pai sempre foi severo, principalmente com as filhas. Nós trabalhamos muito na roça para ajudar a família." Rosa e outra irmã, Eliza, decidiram não se casar. Na época, o pai queria que o matrimônio fosse arranjado e elas não aceitaram a imposição. "Ele foi um pai estilo samurai, rigoroso."A família Hirata é católica e as tradições são mantidas por Yoshito, que gosta muito de rezar e dedica parte do dia às orações. No quarto dele, estão sempre uma cruz, um terço e uma Bíblia. Foi a religião, aliás, que o uniu à esposa. Já falecida, Issao tinha o sobrenome igual ao dele. "As famílias são da mesma região e isso era comum", conta a neta Mariza. Issao, ao contrário do marido, nunca se acostumou com a vida no Brasil e não conseguiu aprender a falar português. O casal teve 6 filhos, família ampliada com a chegada de 11 netos e 3 bisnetos. A vida de Yoshito é bastante regrada - as refeições, por exemplo, ocorrem sempre no mesmo horário. Até pouco tempo, ele gostava de passear pelo bairro onde mora, na Vila Mariana, em São Paulo. Durante muitos anos, freqüentou o Parque da Aclimação diariamente para fazer radio taissô, ginástica rítmica japonesa. Na juventude, participou de Shibai, grupos de teatro japonês e chegou a lutar sumô. Mais velho, voltou suas atenções para as orquídeas, que hoje são cuidadas pela filha Rosa. Yoshito revela que é fã de uma cervejinha de vez em quando e reclama que a filha não o deixa tomar muito. "Queria mais." Ele conta que não sabe o segredo para chegar aos 100 anos tão bem. A idade só afetou a audição. E segue com a intenção de concretizar o seu sonho. "Sei que vou completar 111 anos."

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