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Walmor Chagas: Emoção discreta, que se traduzia em gestos e olhares

Estilo intenso funcionava bem no cinema, avesso a atores que trazem do palco uma técnica muito expressiva

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2013 | 02h02

Walmor Chagas foi um dos grandes atores brasileiros, com atuação na TV, no teatro e no cinema - todas marcantes.

Walmor de Souza Chagas era gaúcho de Alegrete. Em Porto Alegre, entre 1947 e 1952, participou do Teatro do Estudante. Logo ele se muda para São Paulo, onde estabeleceu as bases de sua carreira.

Foi casado com a mitológica atriz Cacilda Becker, com a qual teve a filha Maria Clara Becker Chagas. O ator participou de peças como Volpone, Longa Viagem Noite Adentro e Esperando Godot, tanto no Teatro Brasileiro de Comédia como no Teatro Cacilda Becker.

Atua também nas TVs Tupi e Globo, em várias novelas e programas. Interpretou papéis em novelas como Coração Alado e Vereda Tropical, além de minisséries como Os Maias e Filhos do Carnaval.

A marca deixada por Walmor Chagas no cinema é indelével, mesmo porque estreou em 1965 em um dos grandes filmes de todos os tempos do cinema brasileiro - São Paulo S/A, de Luis Sergio Person.

Na trama, ele faz Carlos, um jovem industrial ambicioso que se alia a um sócio italiano (interpretado por Otelo Zeloni) numa fábrica de autopeças. Entra em crise existencial e abdica da carreira, numa São Paulo marcada pela industrialização acelerada.

É seu maior papel e o filme, o mais perfeito retrato de uma metrópole que se despersonalizava com o progresso. No filme, Chagas também contracena com Eva Wilma e Darlene Glória.

Outros papéis. Outra participação marcante no cinema foi como o contratador João Fernandes, em Xica da Silva (1976), de Cacá Diegues, contracenando com Zezé Motta. Enriquecido pelas pedras que descobria (e, em parte, reservava para si mesmo), louco de amor pela escrava Francisca, João Fernandes satisfaz todos os caprichos da amante, o que provoca reações contrárias na sociedade local, que não tolerava ver a ex-escrava em posição tão alta. O filme foi um dos mais vistos no cinema brasileiro, na chamada fase da Embrafilme, nos anos 1970.

Esteve no elenco de filmes importantes como Asa Branca - Um Sonho Brasileiro (1981), de Djalma Limongi Batista, Luz Del Fuego (1982), de David Neves, Parahyba, Mulher Macho (1982), de Tizuka Yamazaki e Memórias Póstumas (2001), de André Klotzel. Também foi protagonista de Valsa para Bruno Stein (2007), do seu conterrâneo Paulo Nascimento, no papel de um homem idoso que se apaixona pela própria nora (Ingra Liberato).

A despedida das telas veio em um filme de Ugo Giorgetti, Cara ou Coroa (2011), um inusitado olhar sobre os tempos da ditadura militar. O papel de Walmor é de uma dignidade exemplar. Ele interpreta um general da reserva, em cuja casa sua neta e o namorado escondem dois refugiados da polícia política. O velho general é um anticomunista convicto. Porém, não concorda com a repressão que está sendo feita a opositores, usando tortura e morte. No filme, sua presença é silenciosa, de poucas, porém incisivas falas. Diz muito com o olhar e se vale bastante de subentendidos, coisa rara no cinema brasileiro. E também rara entre atores brasileiros, mais chegados ao expressionismo interpretativo que à discrição.

Essa despedida do cinema em Cara ou Coroa pode resumir a maneira de Walmor atuar: bastante discreta, porém intensa, um trabalho contido com a emoção que se traduz em gestos e olhares. Com esse estilo, funcionava muito bem no cinema, avesso a atores que trazem do palco uma técnica muito expressiva. Cinema pede discrição e delicadeza. Walmor foi um dos grandes, sem dúvida.

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