WikiLeaks aponta Bergoglio como líder da oposição argentina

Afirmação constava em documento enviado por embaixador americano em Buenos Aires para Washington em 2007

JAMIL CHADE , ENVIADO ESPECIAL/ VATICANO , O Estado de S.Paulo

18 de março de 2013 | 02h04

Líder da oposição ao governo Kirchner. É assim que o então arcebispo de Buenos Aires, Jorge Bergoglio, foi qualificado pela diplomacia americana em Buenos Aires em um telegrama enviado em 2007 a Washington. O documento, obtido pelo grupo WikiLeaks, escancara a relação conflituosa entre a Casa Rosada e Bergoglio. Mas também revela como a condenação de religiosos envolvidos com a ditadura visaria também a "minar a autoridade moral" de Bergoglio para "comentar assuntos políticos e econômicos".

Ontem, a presidente argentina Cristina Kirchner desembarcou em Roma para acompanhar a missa inaugural do papa Francisco. Hoje, ela terá um almoço e uma audiência com o pontífice - a quem saudou friamente após ser anunciado papa.

Segundo os telegramas da Embaixada dos EUA em Buenos Aires, Bergoglio seria bem mais que apenas um cardeal. Sua ação política chegaria até mesmo a sugerir candidatos em certas províncias para frear o avanço dos Kirchners.

No telegrama de 10 de maio de 2007, o embaixador Anthony Wayne apontou como a relação entre a Igreja e o governo entrou em crise desde que o bispo Joaquín Piña bateu no nome apoiado pelo governo Carlos Rovira para a Província de Misiones.

"O cardeal Jorge Bergoglio afirmou que a Igreja não se envolveria em política, mas apoiou os esforços do bispo Piña", aponta o documento. "Bergoglio recentemente alertou sobre a concentração de poder dos Kirchners e o enfraquecimento das instituições democráticas na Argentina."

"Em contrapartida, o governo se irritou com a aparente preferência do cardeal pela oposição em ano eleitoral. O prefeito de Buenos Aires, Jorge Telerman, e sua parceira de coalizão Elisa Carrió teriam se reunido com Bergoglio em abril, e a inclusão de um líder muçulmano, Omar Abud, na lista de candidatos de Telerman teria sido ideia de Bergoglio", afirmou o embaixador.

Em 11 de outubro de 2007, um telegrama aborda a condenação do padre Christian von Wernich por cumplicidade em vários crimes durante a ditadura militar (1976-1983). Wernich foi a primeira figura eclesiástica a ser punida desde que a Justiça argentina levantou a imunidade para ex-funcionários militares.

A diplomacia americana avaliou o impacto da condenação na imagem da Bergoglio e da Igreja. "No momento em que o cardeal Bergoglio é considerado como um líder da oposição à administração Kirchner por seus comentários sobre temas sociais, o caso Von Wernich poderia ter o impacto de minar a autoridade moral da Igreja e de Bergoglio", afirma o documento.

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