‘Wired’ sobreviverá a outros 15 anos?

Lembro bem a primeira vez em que entrei na redação da revista Wired. Ficava num velho galpão num distrito industrial, em São Francisco, Califórnia. O ano: 1996. Via interfone, alguém disparava o sinal para que uma porta pesada, de metal, abrisse. Um ou dois lances de degraus acima, a parede era rosa. Não qualquer rosa. Um rosa fluorescente, berrante. O cabelo da mocinha recepcionista era igualmente rosa, cortado feito índio moicano. Ela tinha inúmeras argolas de metal presas em pontos diversos do rosto. A Wired está fazendo 15 anos e isso quer dizer um bocado. Ela foi a bíblia da revolução digital. Poucas revistas tiveram sua influência e sua importância para explicar um momento da história. Mais importante do que isso, nasceu em 1993 – portanto, antecipou-se ao estouro da internet, um ano e pouco depois. A revista é cria de Luis Rossetto, um excêntrico novaiorquino que vivera anos na Holanda, onde coordenou uma revista de tecnologia e comportamento chamada Electric World. Durou um tempo até fechar, como toda e qualquer revista, porque não vendia. De volta ao EUA, Rossetto mudou-se para a Califórnia onde decidiu bater na mesma tecla. Ele queria uma revista de tecnologia que falasse de gente e de como os hábitos estavam mudando por conta da digitalização do mundo. Não parece lá algo muito criativo – mas é porque olhamos com os olhos de hoje. Em 1993, celular era coisa que executivos endinheirados tinham. Correio eletrônico existia no máximo em algumas empresas. E internet era assunto para entendidos, em geral pessoas ligadas aos departamentos de ciências em alguma universidade. Quer dizer: Rossetto queria falar das mudanças de comportamento provocadas por tecnologias que a maioria das pessoas sequer conheciam. Era um excêntrico. E tinha toda razão. Naqueles primeiros anos de Wired, não eram só os cortes de cabelo diferentes ou as cores berrantes que chamavam a atenção naquele grande galpão industrial aberto onde funcionava a redação. Se a fauna destoava de qualquer redação brasileira aos olhos de um jornalista iniciante, outra coisa era mais nítida. Nem todo mundo era cool ou punk ou estiloso. Os talentos cultivados, naquela redação, eram jovens, tinham espinhas e vestiam-se de forma desengonçada. Eram nerds. Havia uma mudança cultural acontecendo de fato. A Wired a percebeu e tratou de apresentá-la ao mundo. Muito do que pensamos, hoje, a respeito de cultura, comportamento e tecnologia tem o dedo da Wired. Ela influenciou a visão de todos, mesmo a de quem jamais a folheou. Na Wired, sugeriu-se pela primeira vez que videogames poderiam ser arte ou que seriam parte do cotidiano de adultos no futuro. Em suas páginas apareceram as primeiras idéias a respeito de cidadania digital e o rompimento da censura sistemática imposta por ditaduras – como vemos constantemente hoje, seja em Mianmar ou no Egito, na China ou em Cuba. O primeiro site importante foi o da Wired. Chamava-se HotWired. Não era uma edição online da revista – era algo completamente diferente. Estava lá a divisão em três ou quatro colunas que a maioria dos sites de noticiário ainda usam – incluindo o menu na coluna da esquerda. Estavam lá os banners publicitários – a Wired os inventou. Eles tinham em mente que o melhor modelo para os sites comerciais não era emular uma revista ou um jornal. Era repetir o modelo da TV. Eles venderiam anúncios em troca de liberar o conteúdo de forma gratuita. De certa forma, a Wired inventou a web comercial. Havia um bocado de megalomania no ar, quando visitei a redação da revista. O Netscape havia levantado uma fortuna na abertura de capital na bolsa de valores e o boom das "ponto com" estava apenas começando. Rossetto tinha planos de lançar a Wired TV. Mas não agüentou o tranco e a bíblia do mundo digital faliu na virada do século, quando estourou a bolha do Vale do Silício. A revista ainda está aí, claro. Hoje é publicada pela Condé Nast, uma das editoras de revistas mais tradicionais que há. Rossetto a vendeu. Não tem mais a diagramação ousada que teve. Mas as cores ainda estão lá. É provavelmente injusto cobrar que continue revolucionária. Se hoje parece uma revista como as outras, é por um único motivo: as mudanças que a Wired prometia viraram o status quo. pedro.doria@grupoestado.com.br

Pedro Doria,

30 Junho 2008 | 00h00

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