Yo-Yo Ma retorna ao berço clássico

Ele se junta aos velhos amigos e parceiros Itzhak Perlman e Emanuel Ax para registrar duas obras-primas de Mendelssohn

, O Estadao de S.Paulo

10 de março de 2010 | 00h00

Tangos, rota da seda, Morricone, música popular brasileira - depois dessas aventuras tão díspares, o mais popular violoncelista clássico do planeta, Yo-Yo Ma - que se apresentará na Sala São Paulo nos dias 15 e 16 de junho -, retorna ao berço da música clássica mais convencional neste início de 2010, com um CD bem-comportado.

Aos 54 anos, junta-se a seus velhos amigos e parceiros Itzhak Perlman e Emanuel Ax para um CD com dois trios de Félix Mendelssohn para piano e cordas. Parceiros bissextos, é verdade, mas que num ou noutro momento estiveram com ele nos palcos e em gravações nas últimas três décadas.

A melhor música de câmara nasce da intimidade e do profundo conhecimento dos que a praticam. Respiração simultânea, fraseados e dinâmicas perfeitamente ajustados - isso só se consegue com o tempo. E botem tempo nisso. O Beaux Arts, por exemplo, grupo referência dos trios com piano e do qual participou Antonio Meneses em sua última fase, fez das parcerias de várias décadas um trunfo inegável. Do mesmo modo, construiu seu prestígio o fantástico quarteto Alban Berg, que se dissolveu em 2008, após 37 anos de extraordinária convivência e conquistas artísticas.

O tempo pode passar; mas velhos amigos e parceiros, quando se encontram, reacendem a mágica da integração, resgatam o entendimento por telepatia. É um pouco o que acontece nesta rara gravação, onde essa trinca de notáveis virtuoses interpreta com empenho, prazer e competência duas obras-primas camerísticas, escritas pelo "Mozart do século 19", como o chamou Robert Schumann: "Ele é o mais brilhante entre os músicos; o único que enxergou claramente as contradições de seu tempo, e o primeiro a harmonizá-las." Essas palavras foram escritas logo após Schumann ouvir uma execução do trio nº 1, com o compositor ao piano.

Separados por seis anos (1839-1845), eles apresentam muitas afinidades. A começar da estrutura. Ambos têm quatro movimentos; dois encorpados Allegros em forma-sonata iniciais; os movimentos lentos são dois Andantes comandados pelo piano, que também se destaca nos dois finales, que levam nos títulos a indicação "appassionato". E dos dois scherzi - é bom não esquecermos que a palavra italiana quer dizer brincadeira -, não se sabe qual é mais luminoso, cintilante e translúcido. Desculpem os adjetivos, mas a beleza da música de Mendelssohn costuma levar a esses excessos verbais.

São dois os detalhes importantes que constroem tamanha beleza sonora. O primeiro deve-se a Mendelssohn, que soube combinar timbres tão distintos quanto o poderoso piano e os frágeis instrumentos de cordas, apesar de manter uma escrita virtuosística e em alguns momentos até pesada para o piano. O segundo fica com Emanuel Ax, sábio para terçar lanças com os parceiros e estabelecer um equilíbrio que, por definição, é impraticável. E a quem disser que escanteei Perlman e Ma, esclareço que eles nunca são menos do que perfeitos. Principalmente o segundo, de volta a repertórios convencionais depois de tantas viagens musicais extraeuropeias.

Ouça o ‘Allegro’ do Trio n.º 1

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