Apesar de intervenção do BC, dólar atinge maior nível em quatro anos

Câmbio. Moeda dos EUA dispara e registrou alta de 1,75% só ontem; em maio, valorização foi de 7,24%, movimento de alta é global, causado pela gradual recuperação da economia americana, que deve reduzir a oferta de dólares no mercado internacional

O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2013 | 02h05

O dólar alcançou ontem sua maior cotação em relação ao real em quatro anos, apesar das tentativas do Banco Central (BC) de intervir no mercado. Com a alta de 1,75% de ontem, o dólar fechou a R$ 2,1470. Desde o início de maio, o dólar se valorizou em 7,24%.

A alta do dólar é um movimento internacional. Com a gradual recuperação da economia americana, investidores avaliam que o Fed (banco central dos Estados Unidos) vai retirar os estímulos monetários. Assim, deve reduzir a oferta de dólares no mercado internacional, pressionando as cotações da moeda americana para cima.

Nos últimos dias, o dólar tem se valorizando em relação a moedas de países emergentes. Até ontem, o BC não havia resistido à tendência internacional. Não havia feito intervenção no mercado, apesar do risco de a valorização do dólar tornar os produtos importados mais caros e pressionar a inflação.

Ontem foi diferente. O BC fez uma operação equivalente à venda de dólares no mercado futuro (chamada leilão de swap cambial). Com isso, a valorização do dólar perdeu força por algum tempo, mas voltou a subir. E fechou no maior patamar desde 5 de maio de 2009, quando alcançou R$ 2,148.

No fim da sessão de negócios, o BC ainda fez nova pesquisa com os bancos para se informar sobre a demanda por outra operação como a realizada ontem, o que abre espaço para mais atuações na segunda-feira.

Teto. Para profissionais de mercado ouvidos pelo Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, é cedo para afirmar que o BC estabeleceu um novo teto para a moeda, em torno de R$ 2,15, mas parece claro que há um desconforto em relação a este nível, levando-se conta as preocupações com a inflação.

"A tendência mundial é de valorização do dólar, só que tudo tem um teto. Então, o mercado está testando", disse à agência de notícias Reuters o operador de câmbio da corretora Advanced, Reginaldo Siaca.

Para analistas de mercado, se o BC quiser baixar a cotação, terá de atuar de forma mais intensa. "O BC agiu para tentar responder ao mercado. Mas provavelmente, para o dólar se afastar de R$ 2,15, ele terá que bater mais forte", disse ao Broadcast Luiz Carlos Baldan, diretor da Fourtrade. "O BC só conseguiu vender cerca de metade dos contratos de swap, porque não houve tanto interesse."

Como não vendeu todos os contratos, profissionais de mercado disseram que a tendência é que o BC volte à carga na semana que vem. Não está claro, porém, qual seria o novo "teto informal" para a moeda. "Não dá para afirmar nada, porque hoje a liquidez foi baixa. O BC pode entrar de novo a qualquer momento no mercado", comentou um operador da mesa de câmbio de um grande banco.

Inflação. O que os operadores dão como certo é que o BC vai tentar conter a alta do dólar por causa da preocupação com a pressão sobre os preços. Na quarta-feira, o BC elevou a taxa básica de juros em 0,5 ponto porcentual, para 8% ao ano, para combater a inflação. A última vez que o BC interveio no câmbio foi no fim de março.

Para os analistas financeiros, a cotação da moeda dependerá de dois movimentos, os sinais dados pela economia americana e pela disposição de intervir do governo brasileiro.

Na quarta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, deu entrevista indicando que o governo estaria disposto a tolerar um real mais fraco para baratear a produção de manufaturados e ajudar a melhorar o desempenho da indústria. Mantega disse que o câmbio não será usado no combate à inflação.

Investidores interpretaram a afirmativa como sinal que o governo deixaria a moeda flutuar, seguindo as tendências internacionais. A intervenção de ontem do BC indica, porém, que o movimento terá limites.

A economia americana deu ontem sinais mistos, mas os investidores preferiram se apegar aos resultados que sugerem a possibilidade de o Fed começar a reduzir a compra de bônus.

O dado mais relevante foi a divulgação de que a confiança do consumidor norte-americano chegou ao maior nível em quase seis anos. O índice do dólar contra uma cesta de moedas subiu 0,3 por cento, acumulando ganho de 1,8% em maio. /AGÊNCIA ESTADO E REUTERS

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