Artigo: O tabuleiro sírio

Reestruturação da ordem, inclusão do Irã nas negociações e isolamento dos radicais islâmicos são cruciais para resolver conflito

Hussein Ali Kalout *, Especial para O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2013 | 02h12

O imobilismo em torno do conflito sírio entra numa fase dramática. O embate é, abertamente, um confronto regional em extensa escala e toca diretamente a sobrevivência de modelos de alinhamento ideológico, de projetos de hegemonia política e de reposicionamentos estratégicos no campo diplomático.

O confronto não é mais pela deposição de um regime ou pela ascensão de uma nova força política. No espectro estratégico, cada ator - a exemplo de Turquia, Arábia Saudita, Catar, Irã, EUA e Rússia - trava sua batalha particular para delimitar, resguardar e definir o seu espaço de influência regional.

Analisando o histórico recente do quadro sírio e as movimentações diplomáticas que circundam o conflito, é possível concluir que a conjuntura dos fatos aponta para a configuração de dois cenários.

Pelo primeiro cenário, sob a perspectiva de sauditas, catarianos e turcos, é factível concluir que esses atores não possuem interesse na solução imediata do conflito. O seu objetivo consiste em empurrar a sangria até 2014, último ano de mandato de Bashar Assad, tornando inviável sua permanência ou extensão de sua presidência.

Sob uma cortina de acentuadas pressões, a troica Catar-Turquia-Arábia Saudita pretende forçar uma transição sem Assad e com o estabelecimento de um governo provisório composto por um misto de figuras da oposição em frangalhos com base na Turquia, da oposição em Damasco e das oligarquias que desertaram.

Um segundo cenário seria de interesses de Moscou e Washington, aparentemente, mais sintonizados. Para ambos, as ações militares de Israel e a participação do Hezbollah ampliam as chances de alastramento do conflito, com a abertura de várias frentes, envolvendo, além da própria Síria, o Líbano, Israel e os territórios palestinos.

A proposta de Moscou, com a proximidade do fim do mandato de Assad, em 2014, consiste na criação de um governo provisório que contará com maciça participação de líderes do Partido Baath na transição, somados a figuras importantes da oposição com base em Damasco.

Trata-se de uma transição gradual de médio prazo. Além do mais, nem americanos e europeus, nem russos desejam a inclusão dos jihadistas - trazidos de todas as fronteiras do mundo muçulmano na configuração do poder de uma nova Síria.

DIPLOMACIA

A recente mudança na estrutura hierárquica do partido é vista como a preparação do terreno para uma eventual mudança. É precisamente nessa equação que as visões de Rússia e EUA se cruzam. O governo de Barack Obama parece convencido de que a proposta russa é a opção menos arriscada para salvaguardar os interesses de Washington, resguardando a segurança de Israel e impedindo a repetição da catástrofe do Iraque. O cenário de uma intervenção armada na Síria é uma possibilidade remota, apesar de ser a preferida da troica.

Os europeus sabem que a Síria não é a Líbia e não estão dispostos a pagar um alto custo de uma intervenção armada sem retorno econômico - afinal, na Síria não há petróleo - e os americanos convenceram-se de que apoiar os rebeldes é incorrer no mesmo erro da guerra soviético-afegã, que resultou na criação do Taleban. A Síria hoje está repleta de organizações terroristas das mais elucubradas orientações, como a Frente al-Nusra, uma fusão da pior espécie da Al-Qaeda com o Taleban.

Do balanço da equação geopolítica, o saldo aponta para a Turquia e o Catar como os maiores perdedores e para Israel como o maior dos vencedores. A mal traçada aventura turca na Síria remonta a um erro estratégico de cálculo desprovido de análise aguda em relação à sobrevida do regime sírio e de suas sólidas alianças.

BENEFÍCIOS

Somado ao fracasso de sua pretensão de ingressar na União Europeia, o projeto turco de restaurar sua influência otomana no leste do Mediterrâneo vai lentamente se esvaindo. Já Israel se contenta com os resultados. A manutenção do conflito sírio é benéfica para a sua aspiração hegemônica na região.

Já o Catar colhe seu fracasso na derrota de seu candidato à presidência do Conselho Nacional Sírio, oposição com base na Turquia e na consumada decisão de Moscou de excluir o país de participar de qualquer futura negociação internacional sobre a Síria.

Além disso, a não ortodoxa renúncia ao trono - para os padrões políticos no mundo árabe - do xeque Hamad bin Khalifa al-Thani, em favor de seu filho de 33 anos, xeque Tamim, é um sinal de que o país terá de se recolher e focar em seus assuntos internos.

Por fim, além de seguir desprovido de qualquer plano de governabilidade para todo o povo sírio, o Conselho Nacional Sírio demonstra nítidos traços de decomposição e de falta de coordenação política, traduzidos na escolha, nos últimos dois anos, de seu sexto líder.

Para a resolução do impasse sírio no tabuleiro geoestratégico, a conferência de Genebra II deveria obedecer, em sua pauta, aspectos como a reestruturação da ordem regional, a inclusão do Irã nas discussões, a acomodação dos interesses sauditas e iranianos como o equilíbrio de forças no Líbano e pela não intervenção iraniana no Bahrein, a exclusão dos movimentos radicais islâmicos, e, por fim, a reafirmação da influência russa sobre uma Síria com ou pós-Assad.

*Hussein Ali Kalout é cientista político brasileiro, especialista em Oriente Médio e pesquisador da Universidade Harvard.

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