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Atom Egoyan, Leon Cakoff e a memória que não se vê

Diretor de origem armênia, assim como o criador da Mostra, conta como foi filmar 'Yeravan', episódio do longa 'Mundo Invisível'

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2013 | 02h06

Além da paixão pelo cinema, o diretor canadense Atom Egoyan (O Doce Amanhã) e o brasileiro Leon Cakoff, criador da Mostra de Cinema de São Paulo e idealizador do filme Mundo Invisível, têm muito mais em comum. Ambos são de origem armênia e tiveram a vida marcada pela diáspora e pela sensação de desterro que suas famílias e cultura viveram.

Cakoff nasceu na cidade de Alepo, na Armênia, em 1948, e veio para o Brasil aos oito anos. Egoyan nasceu no Egito em 1960 e se mudou para Toronto com seus pais também ainda criança. Egoyan volta todo ano para a Yeravan, capital armênia, onde é colaborador do festival de cinema local. Leon faleceu há mais de um ano, mas deixou como um de seus valiosos legados outra experiência em comum com Egoyan, o curta Yeravan, um dos que compõem Mundo Invisível, que estreia no dia 14.

"A experiência de filmar com Leon foi maravilhosa. O que mais me ficou na memória foram suas histórias. E de sentir como elas se somavam às histórias de tantas outras pessoas e, obviamente, às minhas", comentou Egoyan em conversa com o Estado, na terça-feira.

O diretor veio a São Paulo exclusivamente para participar da pré-estreia de Mundo Invisível. "Estou em um momento de trabalho insano. Montando dois novos filmes e duas óperas (Salomé em Toronto, e a chinesa Feng Yi Ting par ao Lincoln Center). Mas é especial estar aqui", disse Egoyan, que lança em breve os longas Devil's Knot, com Reese Witherspoon, e Queen of the Night, com Ryan Reynolds.

De volta a Yeravan, conta a história de um homem que viaja à capital da Armênia para resgatar a história do avô desaparecido. Como ferramenta de reconstrução, leva um cartaz e várias fotos. Como um dos 'homens placas' que circulam por São Paulo, vai até o centro da cidade (Praça da República, antiga Praça Lenin) e calmamente espera alguém que se atraia pela placa.

Acaba chamando a atenção de um senhor que encontra, entre suas fotos, um velho amigo, morto na mesma praça, em uma repressão nunca divulgada no Brasil. "O homem com a placa é o próprio Leon. Foi muito forte para nós dois. Ambos somos armênios, mas também somos estrangeiros lá. Descobrimos histórias reais. Descobrimos a história invisível que também é nossa, de como o genocídio armênio foi mantido em silêncio, de como outros conflitos também foram escondidos."

É exatamente das histórias e vidas que passam desapercebidas na cidade de que trata Mundo Invisível. Egoyan foi um dos 12 diretores que, a convite da Mostra, apresentam sua visão sobre a invisibilidade no mundo de hoje. Com concepção e direção geral de Cakoff e Renata de Almeida, tem produção da Mostra e da Gullane e conta com curtas de diretores como Manoel de Oliveira, Wim Wenders, Theo Angelopoulos, Laís Bodanzky, e Beto Brant e Cisco Vasques.

Egoyan foi o único que não filmou em São Paulo. "Foi especial para nós, pois nos ajudou a lidar com o fato de que nossa cultura, sempre muito ligada à Anatólia (hoje Turquia), não existe mais como já existiu. Mas persiste", refletiu o cineasta. "Não sabia que, em tão pouco tempo, Leon não estaria mais conosco. E a noção de finitude, que ocorre quando nossas histórias não são contadas, é presente em Yeravan. Fico feliz de saber que Leon contou um pouco de sua história."

ATOM EGOYAN - DIRETOR

Filho de armênios, nasceu no Egito em 1960 e se mudou na infância para o Canadá, onde estudou no Trinity College, Universidade de Toronto. Em 1984, dirigiu seu primeiro filme, Next of Kin. Em 1997, dirigiu um de seus maiores sucessos, O Doce Amanhã, que lhe rendeu o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes.

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