Economia esfria e empresas queimam estoques, de carros a apartamentos

A menos de um mês e meio do Natal, há no mercado uma espécie de "liquidação" de bens de consumo de alto valor. São imóveis, carros, eletrônicos e móveis, ofertados com descontos e condições facilitadas de pagamento, no melhor período de vendas do ano para o varejo. Normalmente, os preços sobem e as facilidades diminuem nessa época do ano. Mas não é isso que se vê hoje.

MÁRCIA DE CHIARA, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2011 | 03h06

O movimento de liquidações de produtos dependentes do crédito reflete, na opinião de especialistas, a mudança de cenário. Até julho, a projeção de mercado para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2011 chegava a 4,6%. Hoje está em 3,2%, aponta o Boletim Focus do Banco Central (BC). Essa mudança fez crescer o encalhe de itens de alto valor, cujo custo para mantê-los em estoque é elevado.

Nas últimas semanas, três construtoras - Even, Gafisa e Eztec -, por exemplo, cortaram em até 36% o preço de um grupo de imóveis novos. Uma cobertura de alto padrão, que custava R$ 4,2 milhões, passou a ser ofertada por R$ 2,8 milhões. Um apartamento na zona sul de São Paulo, avaliado em R$ 425,6 mil, agora sai por R$ 383,1 mil.

Nos automóveis e nos eletroeletrônicos, a agressividade das promoções tem sido constante. Sob o mote de aniversário da marca Chevrolet, a GM, por exemplo, que recentemente fez um plano de demissão voluntária, sorteia, desde o mês passado, pacotes turísticos para Orlando (EUA) a cem famílias. A condição para concorrer ao prêmio é a compra de carro zero da marca.

Já nas lojas de eletrodomésticos e eletrônicos, como o Extra, do Grupo Pão de Açúcar, o apelo de vendas é mais amplo: vai do parcelamento em até 24 vezes, descontos e até outro produto grátis. Fabricantes de TVs já projetam um mercado de 10 milhões de aparelhos neste ano, ante 10,5 milhões em 2010.

"Havia um excessivo otimismo em vários setores, fruto de um erro de planejamento", diz o sócio da RC Consultores, Fabio Silveira. Segundo ele, não se trata de liquidação, mas de um "forte ajuste" na produção que deve se acentuar nos próximos meses por causa da perda de fôlego da massa nominal de rendimentos dos trabalhadores, que é o combustível para o consumo. Em dezembro de 2010, a massa de rendimentos crescia 15,8% e deve fechar o ano com alta de 8,6%.

Encolhimento. A mudança de ritmo da atividade foi observada pelo economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, com base no IBC-Br, espécie de indicador antecedente do PIB. O último dado é de agosto. Mas, de acordo com as projeções da consultoria para setembro e outubro, em quatro dos últimos cinco meses até outubro, o PIB encolheu em relação ao mês anterior. "A atividade vem mostrando uma tendência de encolhimento, não é mais desaceleração. Mas não é uma retração absurda", diz Borges.

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