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Regina Duarte comemora a plenitude de seu talento com peça alegre e simples

Atriz está em cartaz com o espetáculo 'Raimunda Raimunda' no ano em que celebra cinco décadas de uma belíssima carreira

O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2012 | 02h09

O espetáculo Raimunda Raimunda brota da intensidade interpretativa e do sorriso lindo de Regina Duarte. Ela encarna uma mulher Severina, uma Macabéa, nordestina pobre que vai pelo mundo, cresce e - como a negra Fulô do poema de Jorge de Lima - que de escrava vira dona do Sinhô. Uma saga de sobreviventes, desgarrados. Sertanejos teimosos que Regina foi buscar nos contos populares de Francisco Pereira da Silva (1918- 1985) e lhes deu as luzes e cores que os textos merecem.

Depois de obras como O Cristo Proclamado, que Fernanda Montenegro e um verdadeiro grande elenco dirigido por Gianni Ratto encenaram, no Rio de Janeiro, de O Chão dos Penitentes e das bem-sucedidas adaptações de Chapéu de Sebo, de Machado de Assis, e Memórias de Um Sargento de Milícias, de Manuel Antonio de Almeida, Chico Pereira foi para seu canto de funcionário da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, onde ficou até a aposentadoria. O seu teatro popular, circense e de engenhosa simplicidade de raiz nordestina caiu em desuso.

É um fato já estabelecido que as plateias urbanas de teatro sejam refratárias a temas regionais, sobretudo os de fundo rural. A metrópole, hoje, determina esmagadoramente os temas do palco. No ano da justa comemoração do centenário de Nelson Rodrigues, os 90 anos de Jorge Andrade mereceu menos atenção. É um dos maiores autores do Brasil. E daí? Com a publicação de um livro e leituras dramáticas, o Teatro da USP (Tusp) foi a entidade mais empenhada em não deixar a data passar em branco. Jorge Andrade é o autor do Ciclo do Café, formador da chamada São Paulo de 400 anos. Na agroindústria e agrotóxico que agora predominam (cana, cítricos, soja), cabe pouco lugar ao teatro que, no entanto, não é só mato e solidão. Jorge Andrade tem a mesma amplitude sociopsicológica de autores célebres por tratar de decadências e conflitos familiares (Eugene O'Neill, Tennessee Williams e Erskine Caldwell).

A fidelidade aos tipos jocosos, ingênuos, farsescos do sertão e terras "exóticas" para os sulistas mora é no gosto dos telespectadores e Regina foi beneficiária ao criar a exuberante Porcina da telenovela Roque Santeiro, de Dias Gomes.

É esse universo que escolheu para comemorar os 50 anos de uma belíssima carreira. Opção, de certa forma, estratégica. Regina hoje tem maturidade artística, autoridade cênica, presença e poder de voz que aperfeiçoou de modo notável. Poderia escolher um papel dramático que a levasse ao desafio de contracenar com atrizes de igual poder (só para lembrar: Mary Stuart encenada duas vezes por atrizes de gerações diferentes, a primeira com Renata Sorrah e Xuxa Lopes e depois com Julia Lemmertz e Lígia Cortez).

Regina que, no palco, já foi Branca Dias de O Santo Inquérito, do mesmo Dias Gomes, tem condições para apostas maiores. Mas uma festa compreensivelmente não deve correr o risco de produção cara e sujeita a revés. Ela sabe o que lhe custou levantar a montagem complexa e dispendiosa de A Vida É Sonho, de Calderón de la Barca (1992) Escolheu, então, o terreno seguro com duas surpresas ao seu público.

Não sabíamos que, embora nascida e criada no interior de São Paulo, Regina é filha de pai cearense, daqueles que diziam "eita diabo" e que ela viveu intensamente o tempo dos circos mambembes, atemporais, clássicos (e praticamente extintos) com palhaços, malabaristas, mágicos, uma dançarina insinuante. Picadeiro com serragem e uma segunda parte com melodramas tremendos.

É lembrança que fica e Regina começou a carreira, menina ainda, exatamente como um palhaço de Ariano Suassuna. Logo, sua escolha é coerente e visível no à vontade com Raimunda e as peripécias de cordel. Todos os demais papéis femininos foram resolvidos por travestimentos com bons atores afinados à situação. Há trejeitos amaneirados de sempre para fazer rir porque Raimunda/Regina, muito sabida, não quis saber de concorrência. E ainda assinou a direção vibrante em parceria com Amanda Mendes e foi apoiada nas bonitas soluções de cenografia (José Dias) e figurinos (Regina Carvalho, Beth Filipecki e Renato Machado).

Raimunda Raimunda recupera com brilho o imaginário das figuras modestas e reais de Chico Pereira, artesão do teatro. Espetáculo para festejar a plenitude do talento de Regina Duarte.

Crítica: Jefferson Del Rios

RAIMUNDA RAIMUNDA

Teatro Raul Cortez. Rua Dr. Plínio Barreto, 285, tel. 2122-4070.

6ª, 21h30; sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 50/ R$ 60.

Até 16/12.

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