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Rixa com EUA lança dúvida sobre Cabul

Saída de tropas americanas deve marcar o fim da guerra para americanos, mas ainda é cedo para dizer que o será também para afegãos

ADRIANA CARRANCA, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2014 | 02h04

Há um senso de calamidade no ar já insalubre do Afeganistão e ele se torna mais irrespirável na medida em que a retirada das tropas estrangeiras no país se aproxima - 2014 é o ano do fim da guerra para os EUA. Não se sabe se o será também para os afegãos.

A relação entre os presidentes Barack Obama e Hamid Karzai nunca esteve tão ruim, a população não sabe o que esperar das eleições gerais, marcadas para abril - se ocorrerem - e, após 12 anos de combates, a insurgência do Taleban não dá sinais de enfraquecimento.

Uma série de medidas e acusações do presidente afegão contra os EUA na última semana (mais informações nesta página) agravou a crise entre os dois países, no momento em que se decide o futuro do Afeganistão após o fim das operações americanas de combate, em dezembro. A menos de três meses das eleições para definir seu sucessor, Karzai mantém em suspenso o acordo bilateral na área de segurança, que deveria ter assinado em 2013. Como condição, Karzai exige que a Casa Branca conclua o processo de paz com o Taleban "ou vá embora".

"Karzai quer deixar o cargo como o homem que defendeu a soberania do país e iniciou o processo de paz. Ele está usando todas as táticas para conseguir isso", disse ao Estado o ex-embaixador do Afeganistão para a França e o Canadá, Omar Samad, hoje analista da New American Foundation. "Algumas das exigências que faz são incoerentes, mas outras não. Está claro que os EUA não conseguiriam cumprir sozinhos a principal exigência, que é de um acordo com o Taleban."

Para o diplomata, Karzai tenta pressionar os EUA para tomar medidas mais duras contra o vizinho Paquistão, que se acredita abrigar terroristas, como ativo por maior influência na região contra a Índia, ao mesmo tempo em que continua recebendo milhões de dólares da CIA para combatê-los.

Mas as intenções de Karzai não são tão claras. Outros analistas acreditam que o presidente tenta apenas manter sua influência no país após 2014. Entre os 11 candidatos na disputa presidencial está o irmão mais velho de Karzai, Abdul Qayum. Os outros dez são pashtun, etnia do presidente - exceto por Abdullah Abdullah, que tem origem pashtun e tajique. Reportagem recente do New York Times mostrou que o presidente está construindo uma nova mansão colada ao palácio presidencial, para onde pretende se mudar após eleger o sucessor. Uma das formas para isso seria ganhar de novo a simpatia do Taleban.

Em setembro, o Paquistão libertou, após três anos, o número dois do grupo, mulá Abdul Ghani Baradar. Quando foi preso, em 2010, acreditava-se que Baradar sabia onde estava mulá Omar e que vinha negociando em seu nome um acordo de paz diretamente com Karzai. O presidente afegão chegou a pedir publicamente a libertação de Baradar, mantido isolado pelo servico de inteligência paquistanês (ISI), que teria proibido até a CIA de ter acesso a ele.

"O Paquistão não está disposto a deixar que (Baradar) opere independentemente. Há três anos, suas intenções eram sabidas: ele queria negociar a paz. Hoje já não sabemos, pós ele continua em prisão domiciliar e não é livre para negociar ou mesmo falar", diz Samad. "Ao longo dos anos, o Paquistão evitou prender taleban, mas demonstrou especial esforço em reprimir aqueles que pareciam dispostos em negociar a paz. Essa política tem de mudar."

"O maior equívoco sobre a guerra no Afeganistão é que está terminando", escreveu Graeme Smith, do International Crisis Group, para o Council of Foreign Relations (CRF).

Incertos sobre o futuro, reféns da violência, alarmados por teorias conspiratórias e atormentados pelos fantasmas de uma possível ascensão do Taleban ou de uma guerra civil, como ocorreu na saída dos soviéticos, milhares de afegãos tentam deixar o país. "Há um crescimento de pedidos de visto, inclusive entre as forças de segurança", disse na semana passada o especialista em segurança internacional e políticas de defesa Seth Jones, em uma conferência do CFR.

ONGs já falam em deixar o país, por causa da violência, e o orçamento aprovado pelo Congresso americano para assistência ao Afeganistão em 2014 foi cortado à metade, o que deve agravar o desemprego no país, já na casa dos 60%. Muitos afegãos dependem das organizações estrangeiras por emprego.

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