Sartre e seus ex-amigos

Eu arrumava meu escritório quando um livro caiu de uma estante aos meus pés. Era o quarto volume da série Situations (1964) que reúne artigos e ensaios curtos de Sartre. O livro estava repleto de anotações que fiz quando o li, no mesmo ano em que foi publicado. Comecei a folheá-lo e passei o fim de semana relendo-o. Foi uma viagem no tempo e na história, uma peregrinação à minha juventude e às fontes da minha vocação.

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2013 | 02h07

Os livros e as ideias de Sarte marcaram minha adolescência e meus anos de universidade desde que descobri seu livro de contos O Muro, em 1952, meu último ano de colégio. Devo ter lido tudo o que ele escreveu até 1972, quando concluí, em Barcelona, os três densos tomos dedicados a Gustave Flaubert (O Idiota da Família), outra obras que deixou incompleta, como os romances de Os Caminhos da Liberdade, e o seu trabalho para fundir o existencialismo e o marxismo, Crítica da Razão Dialética, cuja síntese final, prometida muitas vezes, nunca escreveu.

Depois de 20 anos lendo e estudando Sartre com verdadeira devoção, acabei decepcionado com seus vaivéns ideológicos, suas grosserias políticas, sua logomaquia, e convencido de que teria sido mais proveitoso consagrar o esforço intelectual dedicado às suas obras de ficção, seus calhamaços filosóficos, suas polêmicas e seus ditames arbitrários, a outros autores, como Popper, Hayek, Isaiah Berlin ou Raymond Aron.

Contudo, confesso que foi uma experiência estimulante - e um pouco melancólica - a releitura das suas discussões com Albert Camus em 1952, sobre os campos de concentração soviéticos, da sua lembrança e empenho para reabilitar Paul Nizan, em março de 1960, e do longo epitáfio (quase uma centena de páginas) que dedicou à memória do seu companheiro de estudos, aventuras políticas e editoriais, amigo e adversário, o filósofo Maurice Merleau-Ponty (1961).

Sartre adorava a polêmica e a sua prosa, sempre inteligente, mas seca e áspera, nos debates se inflamava, brilhava e o seu afã de aniquilação conceitual do seu antagonista era insaciável. Simone de Beauvoir não se equivocou ao afirmar que ele era "uma máquina de pensar", mas acrescentou que esse intelecto desmedido, essa razão "raciocinante" podia ser também, em algum momento, fria e desumana. Lida hoje, não há a menor dúvida que sua resposta a Camus foi equivocada e injusta e que foi o autor de O Estrangeiro que defendeu a verdade, ao condenar a morte lenta, pelo stalinismo, de milhões de soviéticos no Gulag, quase sempre por causa de suspeitas infundadas de dissidência.

Retórica. Camus defendeu a verdade também ao afirmar que toda a ideologia política desprovida de sentido moral se converte em barbárie. Mas, ainda assim, os argumentos oferecidos por Sartre, apesar do caráter capcioso e sofismático, são expostos de maneira tão esplêndida, com uma retórica tão astuta e persuasiva, tão bem coordenados e ilustrados, que suscitam a dúvida e semeiam a confusão no leitor. Arthur Koestler pensou em Sartre quando disse que um intelectual, sobretudo na França, era alguém que acreditava em tudo aquilo que podia demonstrar e que demonstrava tudo aquilo em que acreditava. Ou seja, um grande sofista.

A evocação de Paul Nizan (1905- 1940), seu discípulo no liceu Louis Le Grand e na Escola Normal Superior, unidos por uma amizade tempestuosa, é magnífica e comovedora. Filho de um operário bretão que graças ao seu talento recebeu uma educação esmerada, Nizan foi muitas coisas - dândi, anarquista, autor de panfletos às vezes disfarçados de romances que seduziam pela violência intelectual e força expressiva - até se converter num disciplinado militante do Partido Comunista. Quando a URSS firmou um pacto com a Alemanha nazista, Nizan desligou-se do partido e criticou duramente a aliança. Pouco depois, no início da Segunda Guerra Mundial, morreu em consequência de uma bala perdida. Mas sua verdadeira morte foi a hedionda campanha de descrédito levada a cabo pelos comunistas para aviltar sua memória.

Camus rompeu com Sarte por causa da aproximação deste com o Partido; Nizan, por causa das divergências e reticências em relação a ele. Em seu ensaio, que serviu de prólogo para o livro de Nizan, Aden Arabie, Sartre faz um relato muito vivo da fulgurante trajetória desse companheiro que parecia destinado a ocupar um lugar proeminente na vida cultural e que morreu daquela maneira trágica aos 35 anos. Ao passo que, quando refuta Camus, aparece como um perfeito companheiro de viagem, em que se dedica a defender a vida e obra de Nizan, Sarte é um debelador implacável do sectarismo dogmático que cobria seus críticos de calúnias infames e preferia desqualificá-los moralmente em vez de responder aos seus argumentos com argumentos. O ensaio é também uma premonição do que poderíamos chamar de espírito de maio de 1968, pois nele Sarte propõe que Nizan se torne um exemplo para as novas gerações, pois foi capaz de romper com os padrões ideológicos e as convenções e esquemas da esquerda francesa e buscar por conta própria e através da experiência vivida um plano de ação - uma práxis - que aproximasse o meio intelectual dos setores explorados da sociedade.

O ensaio sobre Merleau-Ponty também é uma autobiografia política e intelectual, um relato dos anos que compartilharam, como estudantes de filosofia na Escola Normal Superior, o descobrimento da política, do marxismo, da necessidade do compromisso e, principalmente, a tomada de consciência do ódio que o ambiente burguês, do qual ambos provinham, lhes inspirava. Este ódio está impregnado em todas as frases deste ensaio e poderíamos dizer que, com frequência, antes das ideias e raciocínios e antes também da solidariedade para com os marginalizados, é este ódio que leva os dois amigos a determinadas posições e pronunciamentos. Sarte é muito sincero e não precisa muito para reconhecer que, para ele, o objetivo primordial da revolução é acabar com essa classe social privilegiada, dona do capital e do espírito, na qual ele nasceu e contra a qual nutre uma fobia patológica. Neste ensaio aparece a famosa afirmação sartreana - "Todo anticomunista é um cão" - que levou Raymond Aron a perguntar a Sartre se era caso de considerar a humanidade um canil.

Irreversível. Merleau-Ponty foi o último dos intelectuais de alto nível com os quais Sartre fundou Les Temps Modernes a se desligar da revista que durante anos foi para muitos jovens da minha geração uma espécie de Bíblia política. A partir do afastamento de Merleau-Ponty, nos anos 50, ficaram com Sarte apenas os incondicionais que, durante toda a Guerra Fria, aprovariam suas idas e vindas e suas contradições às vezes delirantes nesse imbróglio sadomasoquista em que ele viveu até o final com todas as variantes comunistas (incluindo a China da revolução cultural).

Este ensaio impressiona porque mostra a fantástica evolução da Europa neste meio século depois que foi escrito. Quando Sartre o publicou, a União Soviética parecia uma realidade consolidada e irreversível. A impressão geral era de que a Guerra Fria se transformaria a qualquer momento numa guerra abrasadora e, embora Sartre e Merleau-Ponty tivessem posições divergentes sobre muitas coisas, ambos estavam convencidos de que a terceira guerra mundial seria inevitável e que, ao irromper, o Exército soviético em breve ocuparia toda a Europa ocidental.

A política arrebata até a medula a vida cultural em todas as suas manifestações e os extremos deixam um pequeno espaço para um centro democrático e liberal que tem poucos defensores no mundo intelectual.

Sarte e Merleau-Ponty não só consideram de Gaulle e a Quinta República representantes de um fascismo ressurgente como os Estados Unidos um novo nazismo. Semelhante disparate naqueles anos de esquematismos e intolerância era comum. É assustador o fato de pensadores que considerávamos os mais lúcidos do seu tempo se deixarem cegar a tal ponto por preconceitos políticos.

Mas apesar das viseiras ideológicas, aqueles debates têm algo que hoje foi varrido, de um lado, pela banalidade e frivolidade, e de outro pelo obscurantismo acadêmico: a preocupação com os grandes temas da justiça e injustiça, como conciliar o conteúdo real da liberdade com a justiça e impedir que seja apenas uma abstração metafísica, etc. Hoje os debates intelectuais têm um horizonte muito limitado e transpiram uma secreta resignação conformista, uma noção de que aquelas utopias à época de Sarte e Camus foram erradicadas para sempre da história. Nos tempos atuais, em se tratando de política, é proibido sonhar e somente são permitidos os sonhos literários e artísticos.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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