'Sem paz, a Síria pode se tornar algo parecido à Somália'

Para chefe do Programa de Negociações de Harvard, 'desconfiança' entre rebeldes e governo é maior entrave para a paz

Entrevista com

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2014 | 02h01

Um eventual fracasso nas negociações de paz sobre o conflito sírio, marcadas para começar quarta-feira na Suíça, poderá abrir caminho para o colapso do Estado no país em guerra civil e transformá-lo em uma espécie de Somália. O alerta é do antropólogo William Ury, chefe do Programa de Negociações da Universidade Harvard e autor de um relatório sobre a crise na Síria que tem servido para diplomatas ocidentais entenderem o conflito. O trabalho foi financiado pelas chancelarias da Suíça e Noruega, com a intenção de identificar possíveis entraves no processo de negociação.

A reunião para tentar pôr fim no que Ury qualificou como um "impasse destrutivo" ocorrerá em Montreux. Será a segunda tentativa de acabar com a guerra civil que já deixou 130 mil mortos.

Em entrevista ao Estado, o mediador deixou claro que o principal resultado de seu trabalho na Síria foi ter constatado que todos os lados no conflito estão "profundamente desconfiados" da reação da outra parte caso haja um cessar-fogo ou um acordo de paz definitivo. "A falta de confiança é muito profunda", alertou. "A reconstrução da sociedade síria pode levar de cinco a dez anos para ocorrer", disse. Os principais trechos da entrevista:

O que se espera de Genebra 2?

A reunião será um passo em um caminho muito longo. A paz é possível, ao contrário do que muita gente diz. Há ódio e sofrimento profundos na Síria hoje. Vai levar muito tempo para fechar as feridas dessa guerra. Temos de ser realistas: a paz é possível, mas as perspectivas são de cinco a dez anos para superar a situação.

Quais são os obstáculos que governos e oposição deverão enfrentar ao negociar?

O primeiro é o aspecto emocional. Todas as partes do conflito estão com muito medo de qual será a reação do lado oposto caso um eventual cessar-fogo seja obtido. Há um medo real de ser massacrado. A falta de confiança é profunda e a oposição síria, de certa forma, não acredita que há algo para ela nessa conferência.

Qual deveria ser a base de um eventual acordo?

Esse é exatamente o problema. Não há um acordo sobre o que deve sair de Genebra 2 e como seria a transição. A realidade é que as necessidades de cada uma das partes não poderão ser ignoradas. Se esse for o comportamento, não haverá acordo. Cada um dos grupos terá de ter pelo menos parte de suas necessidades atendidas.

Mas nem todos os grupos acreditam que um acordo político seja a solução, não?

Sim. Existem grupos que ainda acham que podem vencer militarmente essa guerra. Isso é uma grande ilusão. O que existe é um impasse real e um reconhecimento cada vez maior por parte de alguns de que não vão conseguir vencer. Por isso mesmo que Genebra 2 é apenas o começo - e não o fim.

Até que ponto o prolongamento da guerra civil é resultado das diferenças de posição entre as grandes potências?

Uma solução para esse conflito somente terá chance de vingar se vier dos próprios sírios. Não adianta impor nada. Mas, ao mesmo tempo em que temos uma negociação interna, as potências precisam negociar justamente para chegar a um entendimento sobre que Oriente Médio querem ter nos próximos anos. A solução para a guerra é síria. Mas precisa haver um acordo internacional.

O que está em jogo na negociação desta semana?

A Síria vive um impasse destrutivo. A convocação de Genebra 2 serve justamente para evitar o que seria o próximo passo, o caos generalizado. Muita gente diz que a Síria caminha para se transformar no Líbano dos anos 70 e 80. Minha avaliação é que essa análise está errada. Se a guerra continuar, haverá um rompimento das estruturas do Estado e uma transformação em algo mais parecido à Somália.

O que significaria isso?

A transformação da Síria em um território onde mandam senhores da guerra, sem fronteiras e sem Estado constituído. É nessa direção que o país irá se Genebra 2 não der uma alternativa para o conflito. Haverá paz, eventualmente - todas as guerras um dia terminam. Mas o que os negociadores precisam agora é garantir que isso ocorra o mais cedo possível. Temos hoje 130 mil mortos na Síria. Se nada for feito, esse número pode chegar a 600 mil. Um acordo de paz, portanto, salvaria mais de 450 mil vidas.

O Brasil foi convidado para participar da conferência. Qual papel o sr. acredita que os representantes brasileiros poderão ter nesse diálogo?

O Brasil tem o potencial para um papel muito significativo. É o que eu chamo de 'terceira parte', que poderia se apresentar como o ator interessado no povo sírio. O Brasil não tem um lado e, portanto, pode até oferecer um local ideal para diálogos entre adversários que se recusariam a conversar em outros lugares do mundo.

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