Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

Universidade Federal do ABC já gastou R$ 270 mi e tem 2 câmpus inacabados

Criada há cinco anos com uma proposta inovadora de cursos, UFABC ainda enfrenta problemas de evasão e falta de estrutura, além do eterno barro dos canteiros de obras

Paulo Saldaña, de O Estado de S. Paulo,

29 de janeiro de 2012 | 03h05

Criada há cinco anos, a Universidade Federal do ABC (UFABC), símbolo da expansão das instituições federais no País, já consumiu R$ 270 milhões para a construção de seus dois câmpus - e ambos continuam incompletos. A universidade inaugura neste ano o primeiro prédio do câmpus de São Bernardo do Campo, cuja conclusão ainda está longe do fim. As obras devem consumir, no mínimo, mais R$ 100 milhões.

O novo prédio deve abrigar calouros do curso de Ciência e Tecnologia. Ao lado do edifício, com cerca de 20 salas, esqueletos de outros cinco blocos e muita terra - um canteiro de obras que é uma constante para os cerca de 6 mil estudantes matriculados na UFABC.

A expectativa é de que o câmpus de São Bernardo do Campo esteja totalmente pronto até 2014 - o processo de licitação se arrastou desde 2008 e os trabalhos de terraplenagem registraram problemas. Mas o maior atraso está em Santo André, onde um imponente prédio de dois blocos impera à beira da Avenida dos Estados. Incompleto e solitário, ele se destaca na paisagem em meio ao barro e vigas pela metade.

Quando participou da comemoração dos cinco anos da UFABC, no ano passado, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que queria ver a universidade como uma das "100 melhores do mundo". A instituição, criada no berço político de Lula, sempre foi a aposta do governo para aumentar a oferta de vagas em federais no Estado de São Paulo.

A universidade tem um projeto inovador de bacharelados interdisciplinares. O candidato pode ingressar em duas opções de cursos, Ciência e Tecnologia ou Ciências e Humanidades. Depois de três anos, com uma grade flexível, pode optar por cursar mais um ano de uma formação específica, nas áreas de engenharia ou de licenciatura.

Atrasos. A UFABC iniciou as atividades em 2006, ainda sem câmpus definitivo. O contrato para a construção da primeira sede foi assinado naquele ano e tudo deveria estar pronto antes de 2010, o que não ocorreu. Faltam o teatro, o polo cultural, o esportivo e até uma rampa de acesso à unidade. Laboratórios no térreo também estão em obras, mas não faziam parte do projeto inicial.

No primeiro semestre de 2011, após consumir mais de R$ 108 milhões (12% a mais que o contrato), receber seis aditivos na licitação e depois de mais de um ano do prazo sem terminar a obra, a construtora Augusto Velloso, responsável pelo projeto, teve o contrato rescindido. A reitoria afirma que acionou a empresa judicialmente.

De acordo com o vice-reitor, Gustavo Dalpian, o projeto em Santo André deve ser finalizado em 2013. "Houve atrasos da construtora, mas ampliamos o projeto original e praticamente dobramos a metragem construída, de 50 mil para 100 mil metros quadrados", diz ele.

Um novo bloco deve ser erguido em um terceiro terreno, também na Avenida dos Estados. O prédio vai abrigar laboratórios e departamentos do setor administrativo.

Os percalços de estrutura são minimizados pelo vice-reitor, que argumenta que a qualidade acadêmica sempre foi garantida nos cursos. "A UFABC é a única universidade que tem 100% dos professores com doutorado. Criamos 15 programas de doutorado e preenchemos todas as vagas." Neste ano, a universidade ofereceu 1.960 vagas no Sistema de Seleção Unificada (Sisu).

O histórico de evasão mostra que os atrasos nas obras afugentaram estudantes - combinado com a falta de compreensão da proposta dos cursos.

A instituição perdeu, em média, entre 2006 e 2009, 42% de seus ingressantes. Em 2010, por exemplo, o prédio ainda não tinha internet. A taxa de evasão girou em torno de 20% no último ano, segundo o vice-reitor.

Evasão. A estudante Josiane Manteiga de Oliveira, de 30 anos, é da primeira turma da UFABC. Entrou em 2006 e viu muitos colegas abandonarem o curso. Mas aguentou firme e se forma ao fim deste ano em Bioengenharia. Apesar dos atrasos na conclusão das obras e entrega de equipamentos, Josiane, que dirige o Diretório Central do Estudantes, mantém uma boa avaliação.

"Quando cheguei não tinha nada construído, faltavam até mesmo professores de disciplinas específicas. Mas sempre que precisávamos dos laboratórios, eles ficavam prontos", diz ela, que não esconde uma frustração. "Infelizmente não vou usufruir de tudo que a universidade vai virar."

A implantação da UFABC já consumiu, com gastos de infraestrutura, mais de R$ 174 milhões. Neste ano, orçamento gira em torno de R$ 80 milhões.

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