Europa descobre seus 'novos pobres'

Panos, operário do setor de construção, nunca pensou que depois de levantar tantos novos prédios durante o boom imobiliário grego no início da década, viveria em um centro social, sem casa e sem renda. Depois de perder seu emprego em 2009 e seu seguro desemprego em 2010, ficou sem renda. O operário foi obrigado a devolver a casa que havia comprado a um banco e buscar refúgio. "Era para ser algo temporário. Mas já faz quase dois anos que estou aqui e não consigo sair ", disse ao Estado.

JAMIL CHADE, Agência Estado

05 de novembro de 2011 | 14h16

Se nos países emergentes o surgimento dos novos ricos é considerado como um dos fenômenos mais relevantes do crescimento econômico dessa região, na periferia da Europa o continente descobre seus "novos pobres".

Ao final deste ano, a previsão de acadêmicos é de que a Grécia terá sua maior taxa de desemprego em exatamente 50 anos. No início dos anos 60, milhares de pessoas perderam seus trabalhos no campo quando a Grécia introduziu a agricultura mecanizada.

Desde 2008, a taxa já dobrou e está em cerca de 16%. Chegaria oficialmente a 18% em dezembro. Mas institutos de pesquisa acusam o governo de manipular os números e alertam que a taxa real seria de 23%.

Outro drama é que, ao contrário de países como Alemanha ou França, o seguro desemprego já da sinais de fatiga. Pela lei, o governo garante 500 euros por pessoa desempregada. Mas apenas por um ano. Hoje, mais da metade dos desempregados já não encontram trabalho há mais de um ano. Na prática, estão sem renda. Isso sem contar com cerca de 280 mil pessoas que sequer conseguiram receber o que tem direito porque o estado está falido.

Um dos resultados imediatos é a explosão das pessoas sem capacidade para pagar seus aluguéis, hipotecas e mesmo alimentos. Só em Atenas, esse número subiu em 25% em um ano. "Construí casas para centenas de pessoas. Agora, não tenho a minha", diz Panos. "Dizem que essa é uma crise mundial e que há gente em outros lugares vivendo o mesmo problema. Como é que chegamos a isso se tudo parecia ir tão bem. Para onde foi todo aquele dinheiro", pergunta. Ele enviou sua mulher e duas filhas de volta para o vilarejo no interior da Grécia, onde contam com a ajuda de parentes. Panos ficou para encontrar trabalho. No centro social mantido pela entidade Kalimari, as assistentes sociais confirmam que nunca trabalharam tanto.

Além do desemprego, a elevação de impostos teve um impacto devastador. Hoje, um grego paga a terceira maior taxa de impostos do continente. Projeções feitas pelo acadêmico Savas Robolis, da Universidade Pateion, apontam que, até 2015 - quando todas as medidas de austeridade estarão implementadas -, o nível de vida dos gregos que ainda conseguirão trabalhar será 40% inferior ao que era em 2008, às vésperas da crise. A pobreza, que a Grécia pensava que havia superado nos anos 80, desembarca com força.

Quem também alerta para a explosão da pobreza é a Igreja Ortodoxa de Atenas. Costis Dimtsas, porta-voz da Igreja, explica que desde meados deste ano vem registrando um número cada vez maior de pessoas que batem à porta dos centros religiosos em busca de comida, remédio e um teto.

"Há um tsunami vindo e 2012 verá resultados desastrosos no campo social", disse. Dimtsas conta que a rede de distribuição de alimentos sequer está dando conta da demanda diária. "Antes, tínhamos esse serviço basicamente para os imigrantes. Hoje, 60% dos que pedem comida são gregos ", disse.

Hoje, a Igreja Ortodoxa está sendo obrigada a substituir em parte o estado. "Estamos alimentando a cada dia 10 mil pessoas", disse.

No centro de Atenas, um dos bancos de alimentos montados pela Igreja mostra o tamanho do desespero. Na última sexta-feira, duas horas antes da abertura da distribuição de alimentos, a fila formada já dava volta no quarteirão. Em apenas 30 minutos, os religiosos e assistentes sociais entregaram 1,2 mil pacotes de alimentos. Mais da metade da fila ficou sem. Quem teve sorte não esperou nem mesmo deixar o local da igreja para devorar o pacote de batatas, pão e salada, além de um iogurte.

Longe das filas de europeus desesperados, o ministro do Trabalho e braço direito de George Papandreou, George Kutrumanis, mantinha um tom messiânico ao conversar com o Estado. "Todos nossos esforços são na direção de garantir o bem-estar da população. A história nos julgará", concluiu.

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