Carlos Arco/Efe
Carlos Arco/Efe

Ex-ditador argentino Jorge Videla é condenado à prisão perpétua

Ex-general foi o arquiteto do golpe de Estado que em março de 1976 implantou ditadura argentina

Ariel Palacios, correspondente em Buenos Aires,

22 de dezembro de 2010 | 19h20

BUENOS AIRES- O ex-ditador e ex-general Jorge Rafael Videla, de 85 anos, passará o resto de seus dias na prisão. Essa foi a determinação do Tribunal Oral Federal Número Um da cidade de Córdoba, na região central do país, que nesta quarta-feira, 22, condenou à prisão perpétua o arquiteto do golpe de Estado que em março de 1976 implantou uma ditadura que durou sete anos, ao longo dos quais foram torturados e assassinados 30 mil civis.

 

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O tribunal considerou Videla responsável direto de trinta e um assassinatos (camuflados na época como simulacros de fugas) e cinco torturas ocorridos em 1976 na Unidade Penitenciária San Martín, transformada na época em um campo de concentração de prisioneiros políticos nos primeiros meses do regime militar. Os presos haviam sido detidos meses antes, durante a democracia, antes do golpe de Videla.

 

Organizações de defesa dos Direitos Humanos, que haviam feito uma vigília ao longo do dia do lado de fora do edifício do tribunal em Córdoba, celebraram com estrépito o anúncio da condenação do ex-ditador. Outros 29 ex-integrantes da ditadura envolvidos nos crimes de Córdoba - entre eles o general Luciano Benjamín Menéndez - também foram condenados.

 

O julgamento trouxe à tona uma série de depoimentos dramáticos, entre eles os de David Andematten, um dos sobreviventes do centro de detenção UP1, que relatou que os militares estupravam constantemente as mulheres detidas.

 

Na véspera do veredicto Videla havia feito uma prolongada defesa das ações do regime militar e alegou a "necessária crueldade" da ditadura. O ex-ditador também sugeriu que a "sociedade argentina" havia sido cúmplice da ditadura, já que, segundo ele, "não existiam vozes contrárias" ao regime militar. Videla também disse que sua sentença seria "injusta" e que ele era um "bode expiatório".

 

'O mal'

 

María Seoane, que com Vicente Muleiro escreveu "O Ditador", uma detalhada biografia não-autorizada do ex-general, disse ao Estado - em entrevista telefônica - que "Videla não se arrepende de nada, pois voltaria a matar todos aqueles que matou. Não há nenhum rastro de arrependimento nele. É o mal em estado puro!"

 

Segundo Seoane, "Videla reunia-se com o chefe de inteligência antes de ir à missa de manhã cedo. Nessas reuniões informava-se sobre quantos inimigos o regime havia assassinado no dia anterior e como estavam funcionando os 540 campos de concentração da ditadura".

 

Seoane, autora de diversos livros sobre a História recente argentina, sustenta que Videla e seus sucessores na ditadura (os generais Roberto Viola, Leopoldo Galtieri e Reynaldo Bignone) "não foram os mentores intelectuais do golpe, mas sim o braço armado dos grupos econômicos que respaldaram o golpe militar. Eles fizeram as matanças por dinheiro, para implantar seu modelo econômico. Depois, deram uma roupagem ideológica como o 'combate ao comunismo' e essas coisas. Mas, no fundo, era tudo por uma questão de dinheiro".

 

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