Guantánamo é uma bomba-relógio

O governo americano decidiu comprar uma cadeia no Estado de Illinois para acolher os detentos da prisão maldita de Guantánamo, desde que o Congresso não se oponha. Podemos aguardar uma nova guerra contra o presidente Barack Obama. O Congresso sempre foi contra as tentativas de fechar Guantánamo.

Gilles Lapouge, correspondente de O Estado de S. Paulo,

16 de dezembro de 2009 | 08h26

O projeto prevê a transferência de alguns dos últimos presos de Guantánamo, por onde 779 homens passaram entre 2002 e 2008. Quantos seriam os de real interesse? Entre 39 e 90, embora 211 detentos ainda permaneçam na prisão.

Esse é um novo episódio na lamentável epopeia dessa base que horrorizou o mundo por causa do tratamento cruel dado aos presos durante o governo de George W. Bush, sobretudo quando Donald Rumsfeld estava no Pentágono. Acredita-se que 600 desses detentos jamais praticaram algum ato terrorista.

O fechamento de Guantánamo é simbólico para Obama. Dois dias após sua posse, ele anunciou que a prisão seria fechada antes de um ano, ou seja, antes de 29 de janeiro de 2010. O mundo aplaudiu. O fim de Guantánamo marcaria o retorno dos EUA às paisagens civilizadas.

A data fixada se aproxima. E a promessa, com certeza, não será mantida. Obama subestimou as dificuldades. Em primeiro lugar, não se sabe o que fazer com os presos. Enviá-los para o exterior?

Há cerca de um mês, o secretário de Defesa, Robert Gates, ofereceu 116 dos 211 detentos a países estrangeiros. Nenhum mostrou interesse. O último a se esquivar foi a Bulgária, que alegou não poder ajudar de nenhuma maneira. Há um ano, a França disse a mesma coisa.

Assim, Obama tem em seus braços esses prisioneiros que foram torturados durante meses, verdadeiras bombas de ódio, veneno e vingança, rejeitados por todos. Aliás, os próprios prisioneiros temem que, se enviados para algum lugar, sejam torturados e mortos. Além disso, as confissões em Guantánamo foram obtidas por meio de tortura. A Anistia Internacional declarou, em 2005, que Guantánamo era "um Gulag ocidental".

Arbitrariedade

O uso da coação para obter confissões é um obstáculo. Em um eventual julgamento, é possível alegar vício de procedimento. Nesse caso, a Justiça será obrigada a libertar um homem como Khalid Shaikh Mohammed, um dos autores dos atentados do 11 de Setembro.

No entanto, todos os que foram presos em Guantánamo foram condenados por encarcerados sem julgamento. O governo Bush simplesmente catalogou-os como "combatentes inimigos", noção desconhecida do direito internacional. Eles não têm o benefício de nenhum estatuto legal. Não foram processados judicialmente e nem são prisioneiros de guerra. Não existem. São "nada".

Como libertar gente que não existe? Como abrir a porta para um "nada"? É para tentar se livrar dessa armadilha que o governo quer comprar a prisão em Illinois. Por sorte, o governador do Estado, Pat Quinn, aceitou a ideia porque "criaria mais empregos", explicou ele.

O reinado de Bush, uma catástrofe à época, continua empesteado, mesmo sendo "passado". As marcas que deixou são como bombas-relógio. É difícil desfazer a teia de erros que Bush teceu delirantemente.

 

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