Indústrias de alimentos viram alvo de Hugo Chávez

Com menos recursos para importar, governo tenta controlar produção para evitar escassez e preços altos

Ruth Costas, O Estado de S. Paulo

22 de março de 2009 | 08h36

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, está respondendo à crise econômica global acelerando a implementação de seu projeto socialista e elegeu o setor alimentício como o primeiro alvo das novas mudanças. O objetivo ele não esconde: controlar grande parte da cadeia produtiva venezuelana para impedir que as grandes empresas, os "capitalistas exploradores", boicotem o avanço da revolução.

 

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Seus métodos são a desapropriação de fazendas e indústrias, intervenções, ameaças e tabelamento de preços. "Os alimentos representam uma grande parcela do orçamento das famílias mais pobres, a base de apoio de Chávez", disse ao Estado o economista venezuelano Maxim Ross, diretor de uma conceituada consultoria que leva o seu nome.

 

"Elaborar um projeto para ampliar o controle da cadeia produtiva foi a fórmula encontrada pelo governo de Chávez para evitar que o descontentamento causado pela crescente inflação e pela escassez de alguns alimentos resulte em perda de votos."

 

90% da comida importada

 

Em uma década de governo de Hugo Chávez, a Venezuela tornou-se mais dependente da importação de comida. José Guerra, economista da Universidade Central da Venezuela, afirma que o país importa hoje 70% dos alimentos que consome. "Nos anos 90, esse índice estava entre 40% e 50%", diz. A inflação de 31% ao ano corrói os salários e transforma as compras do mês numa peregrinação por muitos supermercados. Milhares de pequenos negócios quebraram quando o Estado entrou no mercado de comercialização de alimentos.

 

A rede estatal Mercal oferece produtos subsidiados em 16 mil pontos de venda, controlando 30% do mercado. A distribuidora PDVAL, subsidiária da petrolífera PDVSA, controla outros 5%. Para a população pobre, os subsídios são uma ajuda bem-vinda, mas economistas acreditam que o modelo é insustentável. Em muitos Mercais a variedade de produtos é pequena. Os alimentos são baratos, mas é preciso ter sorte para encontrá-los.

 

O governo diz que muitos produtos não chegam às prateleiras por duas razões. Primeiro,porque os produtores e comerciantes os estocam para impulsionar os preços. Depois, porque desviam sua capacidade produtiva dos produtos tabelados para os de preço livre para poder ganhar mais. Enquanto o macarrão comum, tabelado, custa 3 bolívares fortes, o de sêmola sai pelo dobro. Os empresários reclamam que os preços impostos pelo governo não permitem margens mínimas de lucro e alegam que a incerteza jurídica e as ameaças ao setor privado inibem investimentos produtivos.

 

A política de combate à inflação de Chávez lembra as medidas desastrosas adotadas no Brasil dos anos 80. De forma semelhante, o então presidente brasileiro José Sarney mandou a Polícia Federal caçar boi no pasto quando o controle de preços do Plano Cruzado provocou desabastecimento. "Já é um chavão dizer que a crise, além de problemas, também cria oportunidades", disse Chávez na quinta-feira. "Aproveitaremos essa oportunidade para aprofundar a luta contra privilégios de setores que já ganham muito e querem ganhar mais ainda. Vamos defender o povo, não a burguesia."

 

Desapropriações

 

No início do mês, uma beneficiadora de arroz da gigante americana Cargill foi expropriada. Dias antes, militares e fiscais do governo haviam ocupado outra processadora da companhia Polar, de capital venezuelano. Na terça-feira, o governo anunciou que, além dos produtos básicos, também tabelará os insumos para a produção de arroz. Dois dias depois, resolveu expropriar uma fabricante de sardinhas em lata depois que seus funcionários, simpatizantes de Chávez, denunciaram que a empresa havia reduzido em 30% a sua produção. Nos últimos meses, fiscais têm circulado pelas empresas impondo metas de produção para os produtos tabelados.

 

A desapropriação de terras também segue a todo vapor e a oposição denuncia que até fazendas produtivas estão sendo tomadas. "É um risco que três ou quatro indústrias controlem a produção de alimentos para o povo venezuelano", disse recentemente o ministro da Agricultura, Elias Jaua, resumindo a estratégia do governo. "A ideia é tomar o controle desse setor, inaugurando a hegemonia do Estado e do poder social."

 

Tesouro abalado

 

Francine Jácome, diretora do Instituto Venezuelano de Estudos Sociais e Políticos (Invesp), explica que até o ano passado o governo Chávez tinha recursos de sobra para suprir a escassez de alguns produtos com importações. "A queda do preço do petróleo reduziu a capacidade de Chávez adotar tal estratégia e é por isso que agora ele resolveu tomar as instalações das empresas para obrigá-las a produzir os produtos que estão faltando e vendê-los pelo preço estipulado", afirma Jácome.

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