José Serra classifica conduta do Itamaraty como 'trapalhada'

José Sarney, também criticou a ocupação da embaixada, que está se tranformando em 'comitê político'

estadao.com.br,

29 de setembro de 2009 | 12h54

O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), classificou na segunda-feira como "trapalhada" a conduta do Itamaraty no caso do abrigo ao presidente deposto de Honduras. "Acho que o Itamaraty meteu-se numa trapalhada que não será fácil desfazer", disse Serra. O governador afirmou que não está "acompanhando em minúcias" o caso, mas espera que o País encontre uma saída bem sucedida. Serra lembrou que teve de recorrer à ajuda de embaixadas no Brasil e no Chile para proteger-se do regime militar nas duas vezes em que foi exilado. "Gastei na minha vida uns nove meses retido em embaixadas para sair do país. O que tem lá (em Honduras) não é asilo", avaliou.

 

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Já o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), avaliou que há exagero, por parte de Zelaya, na ocupação da Embaixada do Brasil em Tegucigalpa. Na opinião de Sarney, Zelaya está transformando a representação diplomática em um comitê político. "Acho que o direito de asilo (a Zelaya) o Brasil não poderia deixar de dar. Mas o que está havendo agora é um certo exagero na ocupação da embaixada. Ele tenta transformá-la em um comitê político", criticou Sarney, ao chegar ao Senado na segunda-feira.

Segundo o senador, uma tradição diplomática do Brasil foi atingida. "A embaixada brasileira tem de zelar pelas leis que determinam a não intervenção nos assuntos internos dos países. O Brasil, há 200 anos, tem respeitado essa lei da soberania dos países e de não-intervenção", acrescentou.

Parte do desconforto de Sarney com a presença de Zelaya na embaixada em Tegucigalpa deve-se ao envolvimento do presidente venezuelano, Hugo Chávez, no episódio. Atribui-se ao líder venezuelano a articulação que culminou com o "desembarque" do presidente deposto na sede diplomática do Brasil. No início do mês, o presidente do Senado aprovou no plenário da Casa um voto de censura contra o presidente da Venezuela. Foi uma resposta ao requerimento da Comissão de Relações Exteriores do Senado, que repeliu as medidas antidemocráticas tomadas por Chávez, entre elas a limitação à liberdade de imprensa.

 

Já o líder do PT, senador Aloizio Mercadante (SP), afirmou "não haver dúvidas quanto ao fato de Manuel Zelaya, presidente deposto de Honduras, ter sofrido um golpe".

 

Mercadante pediu, por isso, que os senadores e deputados favoráveis ao Estado Democrático de Direito e às liberdades democráticas, se posicionem claramente contra o golpe. Mercadante disse, porém, que ao mesmo tempo em que o Brasil dá apoio a Zelaya deve exigir do presidente deposto que este não utilize "o espaço midiático brasileiro com fins de operação política".

 

Decisões

 

O presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), vai avaliar se a Casa deve mandar uma comissão externa à Tegucigalpa, em Honduras, para acompanhar a crise no País. O grupo de deputados marcou a viagem para as 8h de quarta-feira. "Vou chamar os deputados, trocar ideias com eles e eu não sei se vale a pena. Vou examinar isso. A situação está um pouco complicada a essa altura, e não sei se vale a pena os nossos deputados estarem lá", disse Temer.

 

O deputado Raul Jungmann (PPS-PE), coordenador do grupo, disse que a comissão vai verificar a situação dos brasileiros residentes no país, depois da entrada de Manuel Zelaya na missão brasileira na semana passada. Segundo o deputado, há o temor de que haja algum tipo de represália após o Brasil ter abrigado o presidente deposto em sua embaixada. "Nossa missão é garantir a integridade dos brasileiros que residem no país. Vamos procurar algum tipo de compromisso que garanta a segurança dessas pessoas", afirmou.

 

De acordo com o deputado, o grupo parlamentar brasileiro terá reuniões com o presidente do Congresso hondurenho, José Alfredo Saavedra, e com representantes da comunidade brasileira em Honduras. A comissão também pretende visitar a embaixada brasileira, cujo prédio está cercado por tropas do governo de fato, comandado por Roberto Micheletti. "Não faremos nenhum contato com o governo local. Nossa negociação se dará exclusivamente com o parlamento", afirmou Jungmann. O retorno dos parlamentares ao Brasil está previsto para sexta-feira. 

 

(Com Silvia Amorim, de O Estado de S. Paulo, Carol Pires, da Agência Estado, e Denise Madueño, de O Estado de S. Paulo e Agência Senado)

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