O slow shopping da Lapa

Freguesia fiel dá um gostoso passeio pelo tradicional Mercado da Lapa

Neide Rigo/ESPECIAL PARA O ESTADO,

26 de agosto de 2010 | 08h48

Um dos apegos que tenho no meu bairro é o Mercado Municipal Rinaldo Rivetti, o Mercado da Lapa, que fez 56 anos na última terça. Ele atrai fregueses fiéis, de perto e de longe, que não estão ali para tirar fotos ou fazer pose. Mesmo porque o prédio verde-amarelo não é lá muito atraente.

Recorro a ele não só quando preciso comprar algo, e aí vou e volto de trem, rapidinho. Mas também sempre que tenho tempo sobrando, quando estou triste ou alegre, se um trabalho empacou ou por falta de inspiração. E nesses casos sigo a pé, balançando minha sacola de lona verde que comprei lá mesmo e volta, invariavelmente, cheia de gostosuras. E eu, de ânimo e ideias para almoços e jantares.

Incrível que ainda hoje encontre no mercado os mesmos produtos que meus pais compravam quando eu era criança. Minha mãe passava por ali pelo menos uma vez por mês, quando ia à Lapa pagar contas, e vinha carregada de miúdos de boi, lentilhas, favas rajadas, bacon, mocotó e geleia à fantasia, aquele mosaico de gelatinas coloridas de sabor artificial. Nas bancas de frios, entre rapaduras, doces de buriti, manteiga de garrafa e feijão-de-corda, essa gelatina continua atraindo as crianças.

Já meu pai passava no mercado sempre às sextas-feiras, quando saía mais cedo da fábrica. Lembro do dia em que trouxe camarão pela primeira vez e tivemos que fritar numa panelinha sobre um fogareiro, fora de casa, porque minha mãe não suportou o delicioso cheiro de mar, que não conhecia. Comemos muito camarão nesse dia. E continuo comendo não só os camarões e sardinhas da peixaria São José, onde o atencioso Sílvio vende toda a sorte de peixes frescos de rio e de mar e também berbigões e mariscos de Santa Catarina.

Se por um lado o Mercado da Lapa não tem a comodidade de um supermercado, cativa pela oferta de produtos artesanais ou de pequena escala. E, sobretudo, me tira do anonimato quando sinto que estou acima do código de barras e do cartão de crédito, quando o vendedor me oferece um naco de queijo serrano, uma azeitona suculenta, um tremoço maior que o outro.

Muitos permissionários e vendedores me tratam pelo nome - e isso é uma das melhores sensações de pertencimento quando se escolhe viver em sociedade, principalmente porque muitos estão ali há 30 anos ou mais.

Com algumas exceções, a relação comercial é atenuada pela simpatia. Um verdadeiro slow shopping de que não abro mão.

 

Favas, farinhas, feijões-de-corda e guandu, arroz, miúdos e produtos nordestinos

No Mercado da Lapa - R. Herbart, 47, Lapa, 3832-1834; 2ª a 6ª, das 8h às 19h; sáb. das 8h às 18h

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